Jornal Liberdade
O estímulo aprovado pela realidade concreta

O estímulo aprovado pela realidade concreta

Façamos a parte que nos cabe

Cléverson Israel Minikovsky
23 de março de 2026
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Notícia de 13 de março de 2026, da Folha de S. Paulo, relata que um, em cada quatro jovens, desiste de abandonar o ensino médio, graças ao pé-de-meia, programa do governo federal, criado com vistas à manutenção do aluno em sala de aula. É, ao menos, o que atesta o estudo do Centro de Evidências da Educação Integral, uma parceria entre o Insper, o Instituto Sonho Grande e o Instituto Natura. A ideia não era manter o aluno matriculado? Sim, era. Em alguma medida, o programa surtiu efeito? Sim, surtiu. O fato é que o governo federal precisa apresentar dados a organismos internacionais, como a UNESCO. Devo endereçar uma crítica grave ao que está acontecendo. Os estudantes simplesmente não sabem o que estão a fazer no interior da sala de aula. Isso, inclusive, é aplicável aos estudantes universitários. Se o sujeito continua na escola para acessar, no devido tempo, a caução do pé-de-meia, ele padece de déficit severo na percepção do que é essencial e do que é acessório, nos ciclos de vida, pelos quais passa. A analogia seria esta: “- Vou lhe dar um Lamborghini! - Mas eu não quero essa carroça! - E se eu lhe desse uma capa impermeável para cobrir a raridade sobre rodas, você aceitaria minha oferta? - Ah, sim, neste caso, eu aceito!” É o que se descortina ante nossos olhos! Mal percebe o aluno que ele é um privilegiado, por poder permanecer num colégio custeado pela sociedade, para que ele próprio possa contribuir para si mesmo, e para que retribua à coletividade o investimento adiantado. A situação ilustrada é muito pior do que comprar uma mercadoria ruim, porque ela está envolta numa embalagem bonita. Receber pagamento para estudar é como sujeitar a degustação de um churrasco à condicionalidade da percepção de uma verba de incentivo. A diferença é muito sutil: permanecer ligado à unidade escolar, a rigor, não é exatamente o mesmo que “desistir da desistência”. Fica escancarada a má vontade, a falta absoluta de propósito. Lado outro, desta mesma realidade, são salas de aula vazias em universidades públicas, porque não surgem pretendentes para ocupar tais assentos. As pessoas não querem ter um bom futuro, nem mesmo quando a oportunidade, em termos financeiros, é de custo zero. Nasci em 1979. Lembro-me de quando era criança ou adolescente, do empenho de conhecidos e chegados, no afã de conquistar uma vaga de trabalho. As pessoas buscavam sua autonomia financeira, e, para ser bem realista, o trabalho era uma tábua de salvação para quem se via comprimido por deveres e necessidades várias. Na época, além do mais, o trabalho era um valor em si mesmo. Diferentemente de hoje, em que o trabalho é encarado como um aborrecimento, pelo qual se tem que passar, para auferir renda. As sociedades que antanho foram pobres, e que, agora, são desenvolvidas, empenharam-se de corpo e alma ao estudo e ao trabalho. E o Brasil está na contramão desta tendência, enviesado pela mentalidade da preguiça. O correto, em meu ponto de vista, seria o justo oposto: que o jovem, uma vez empregado, devolvesse, ao menos parte, do valor estatal aplicado em sua formação, na escola pública e na universidade pública, ao erário, potencializando esse recurso para as próximas turmas que ficariam sujeitas ao mesmo regime. A motivação se radica naquele espaço onde concorrem necessidades e potencialidades. As pessoas têm carências, e, mediante esforços e atividades, canalizam os recursos para o adimplemento das demandas. Se os recursos caem-lhe ao colo, sem que elas nada façam para recebê-los, a inércia continuará sendo a regra. Se muitas são as necessidades, e, de modo algum se vislumbra uma saída, de igual forma, a superação do estado de lacuna esbarrará em limites de ordem externa, sobre os quais não se tem ingerência. O Brasil, há muito tempo, foi descrito como “a terra em que, em se plantando, tudo dá”, todavia, para que plantar, se o fruto nos é entregue numa bandeja, já descascado e fatiado? Não é uma crítica ao governo. O governo federal fez o que poderia fazer. Fez muito bem, por sinal. O puxão de orelha destina-se aos meus compatriotas, aos cidadãos, aos administrados. Se o amável leitor é pai ou mãe, isso já seria motivo suficiente o bastante, para levantar da cama com energia, deslocar-se até a sede de trabalho, matar os leões de cada dia. Não é o governo quem deve lhe dar um pé-de-meia, é você, adulto, quem deve dar um pé-de-meia a si mesmo quando velho, quem deve dar um pé-de-meia aos filhos e, quem sabe, aos netos. A iniciativa pública aludida nos faz ver o quanto estamos sendo relapsos e displicentes quanto à nossa iniciativa privada. O governo deve, sim, planejar. E no que concerne aos nossos estudos, trabalhos, economias, o que estamos deixando alinhado? Responsabilidade individual e familiar é luz, pratiquemo-la!

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