Fazer ciência por que e para quê?
Descrição de uma breve relação entre Estado, sociedade e ciência
O fato mais noticioso, oriundo do meio científico brasileiro, do início do ano de 2026, está ligado ao nome de Tatiana Coelho de Sampaio. Esta mulher é professora da UFRJ e chefa do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular. Ela foi capaz de identificar uma molécula chamada polilaminina, direcionando essa nanoestrutura para resultados positivos em saúde humana, mais especificamente, empregando-a na reabilitação de paraplégicos e tetraplégicos. A polilaminina possui a faculdade de facilitar a reconexão de fibras nervosas em lesões medulares. Embora a técnica referida, desenvolvida pela cientista nominada a pouco, já tenha exibido seu potencial, do ponto de vista metodológico, há a necessidade protocolar de testes ulteriores, para além dos já realizados. De todo modo, a pesquisadora compareceu em programa televisivo de auditório, ladeada por um paciente que concordou submeter-se como cobaia para testes. Um dia tetraplégico, ele só piscava os olhos. No dia da sua aparição na mídia, caminhava normalmente ao lado da professora Sampaio. Realmente, é ciência, mas parece ser um milagre. Durante a entrevista, a cientista contou que o Brasil perdeu a patente internacional da descoberta, por não ter efetuado o correspondente recolhimento. Já o registro nacional foi salvaguardado, porque a pesquisadora arcou com esse custeio com recursos próprios. Esse desfalque nos remete aos contingenciamentos da gestão Temer. A direita política entende que é um desperdício canalizar verbas para o desenvolvimento da ciência. Esse postulado é o exato oposto do que ocorre nas nações desenvolvidas: lá o motor da economia é a inovação científica e tecnológica. Precisamos discernir duas situações: 1) o entendimento de que ciência não vale à pena, e, 2) a crença de que nós, brasileiros, não somos capazes de produzir ciência classe A. De todo modo, em meu ver, ambas as noções se mostram equivocadas. No tocante à segunda tese, ela foi rotulada por Nelson Rodrigues como sendo a “síndrome de vira-lata”. Quem não sabe por que e para que se produz ciência, faça essa pergunta aos pacientes da doutora Sampaio, que ficaram anos no fundo de uma cama, sem se mexer, e que agora resgataram sua autonomia. Pegando carona no exemplo que encabeça esse artigo, quero falar um pouco daquele outro tipo de produção científica, que não goza do mesmo caráter espetacular. Um tratado bem redigido de economia, repleto de fórmulas e modelos matemáticos, encorpado por um texto abstrato e adensado, simplesmente não comove plateias. Não é viável exibir em larga escala esse material, porque ele jamais será ovacionado. Quero dizer que a ciência promove interesses legítimos, entretanto, de baixa visibilidade. E esses empreendimentos científicos de baixa percepção, no coletivo, podem ser tão ou mais úteis que a polilaminina, aos paralíticos. A ciência não é um luxo dos países ricos, e muito menos um desperdício. Ela é investimento. Ciência não é um tema caro à plebe, mas precisamos falar dela, porque, afinal, no regime democrático, os políticos são eleitos com os votos dos populares, e são eles, os de terno e gravata, que decidem o tamanho do investimento naqueles de jaleco branco. Aqui no Brasil, as disciplinas de matemática, física, química e biologia, estão entre as menos queridas dos estudantes. O estudante não consegue, e até reluta, em se apropriar dos saberes já consolidados nestas áreas, fazendo do desenvolvimento e da promoção da ciência uma verdadeira quimera. O acontecimento, de que estamos falando, induz à reflexão sobre como deve ser a relação entre o Estado e as universidades, entre o poder público e os nichos de desenvolvimento científico. Outro ponto de vista faz-nos refletir sobre o papel da mulher na sociedade. Até muito recentemente, entendia-se que os conhecimentos estratégicos eram privativos aos seres humanos do sexo masculino. No geral, tem-se uma visão estereotipada da ciência e do cientista. A ciência é um trabalho, e o cientista é um trabalhador incansável, de carne e osso, como eu e como você. Fazer ciência é agir. O pior, que um indivíduo e que uma nação podem fazer, é sempre reagir, em vez de agir. Nós precisamos nos antecipar aos problemas e às demandas. Estamos habituados a importar soluções. A ciência é o ramo de atividade que fará com que exportemos soluções, e produtos e serviços de valor agregado. Isso, claro, se atendermos aos parâmetros burocráticos internacionais, o que é o mínimo do mínimo, e que não estamos, presentemente, realizando. Cara professora Tatiana Sampaio, o Brasil se orgulha da sua pessoa. Acordemos para o valor da ciência, do Brasil e do povo brasileiro. É chegada a hora de superar o amadorismo, e mostrar para o mundo o quanto somos profissionais. Ciência é luz!



