A sabedoria de um rato
Uma história real convertida em fábula
As pessoas com quem convivemos, por anos, proporcionam-nos vivências e experiências. Com elas montamos uma espécie de sanduíche, algo marcado pela sobreposição de camadas, sendo algumas muito positivas, e outras, nem tanto. Numa chimarreada com meu finado genitor, ele contou-me uma história. A propósito, ele me contou esta história mais de uma vez. Eu a reproduzo aqui: Certa vez, pai e filho estavam retornando para casa (depois de um dia de trabalho na roça?), quando começou um temporal. A área era ampla e desbastada, sobressaindo-se na paisagem uma árvore de frondosa copada. Pai e filho se refugiaram ali. Passados alguns instantes, um rato saiu dali de dentro, visto que se escondia numa fresta do tronco. Então o pai disse ao filho “é melhor sairmos daqui, vamos para outro lugar”. E saíram. Mal haviam deixado o lugar, precipitou-se um raio, que partiu a árvore de alto a baixo. Lição? Ao que parece, o rato foi dotado de uma espécie de premonição. Essa é a narrativa. Saio do pretérito remoto, e adentro ao pretérito recente. Bem, no dia 25 de fevereiro do corrente ano (2026), logo após as dezoito horas, eu me desloquei de casa para um auditório, onde aconteceria uma capacitação. Morador da Schramm, eu fui constrangido a me esconder debaixo do alpendre da Gráfica JL, eis que uma tempestade vergastou os pedestres que deambulavam nas proximidades, naquele horário. Em instantes, a lateral da via e as calçadas do entorno ficaram inundadas. Provavelmente, saído de um bueiro, um rato grande e bem alimentado buscou abrigo no mesmo ponto em que eu estava. Ele ficou perto dos meus pés. Até parecia que confiava em mim. Pensei com meus botões: você não está com medo, ó rato? Quem lhe deu tanta coragem? Afinal de contas, como diz o provérbio, você é um homem ou um rato? Se um rato sabe qual é o local perigoso, deve saber também, qual lugar é seguro. Por conseguinte, fiquei mais aliviado e confiante, certo de que não seria alvejado por um raio naquele abrigo temporário. Meu asqueroso colega roedor estava excitado, e era perceptível que seus batimentos cardíacos estavam a mil. Movido pela adrenalina, ele agarrou-se ao mata-junta da porta e, por ele, subiu até o alto da porta, do lado de fora. Interpus meu guarda-chuva entre minha cabeça e a sinantrópica animália, procurando evitar que a mesma saltasse sobre mim. A precipitação de água era pletórica, e os muitos minutos, em que a intensidade pluvial não era edulcorada, pareciam uma eternidade. O rato desceu da porta e ficava no entorno dos meus pés. Dei uns gritos, e ele foi embora. Exatamente no dia em que estes fatos se deram, foi inaugurada uma padaria do outro lado da rua, e este estabelecimento tinha uma cobertura mais ampla do que aquela que encontrei anexa ao prédio. Quisera a Providência me colocar ali, justamente para permanecer ladeado pelo humílimo quadrúpede. Muito embora a diferença ontológica entre um rato e um ser humano seja, no mínimo, expressiva, a circunstância de ambos recorrerem a um mesmo abrigadouro, passa-nos a mensagem incontestável da casa comum. Entretanto, se o conceito de “casa comum” é mais filosófico ou ecológico, na seara do sanitarismo, o conhecimento técnico trabalha com a categoria de “saúde única”, ou seja, os animais que partilham o ambiente conosco devem estar sadios, porque organismos de espécies diferentes podem transmitir, entre si, patógenos. Ter fé é acreditar que as coisas não acontecem em nossa vida por acaso. Dentre as muitas promessas da parte de Deus, uma delas é que Ele nunca nos abandonaria. Em Deuteronômio 31, 8, podemos ler: "O próprio Senhor irá adiante de vocês e estará com vocês; ele não os deixará, nem os abandonará. Não tenham medo nem desanimem" (NVT). O Novo Testamento itera esse mesmo princípio. Senão vejamos, o que consta em Hebreus 13, 5: "De maneira alguma deixarei você, nunca jamais o abandonarei”. Deus, que está num elefante, está, de igual forma, no rato que foge de um alagamento. Deus se faz presente em nossa vida mediante aqueles seres que integram a Criação. Nós não estamos sós nos momentos críticos, porém, é preciso ser bom observador para notar a presença de Deus. A chuva cessou, dando lugar a um chuvisco, que caía serenamente, e, com o guarda-chuva em punho, segui o caminho para o meu compromisso. Valeu à pena aguentar o perrengue. Saí cheio de conhecimento da palestra, verdadeiramente desasnado. Entrementes, o conteúdo da capacitação eu o compartilharei com o amável leitor no próximo artigo. Espero reencontrá-lo na próxima publicação. Durante a tempestade o sol não se extingue, ele apenas não pode ser visualizado. Assim também, nada pode ofuscar nossos ideais. Obstáculos são essas coisas medonhas que aparecem quando tiramos o olho da meta. Sem embargo, nada é intransponível, tudo é passageiro. No fundo, destarte, a escuridão do aguaceiro é luz disfarçada de penumbra, esta é magna verdade!



