Jornal Liberdade
Guerra no Irã: só mais um capítulo

Guerra no Irã: só mais um capítulo

Breve análise geopolítica acerca da guerra no Irã

Cléverson Israel Minikovsky
19 de março de 2026
279 visualizações

A Pérsia é um país muito antigo. O Irã vem a ser uma espécie de versão atualizada da velha Pérsia. Assim como a Europa era pagã, e foi gradativamente cristianizada, o mesmo se deu com a Pérsia, ela era zoroastrista, e se tornou, aos poucos, islâmica. Sim, a Pérsia é muito mais antiga do que o islamismo. Maomé é do século sétimo da Era Cristã, ao passo que vemos, na Bíblia, referência ao país de que estamos falando, já no Antigo Testamento. Mariano Soltys chamou a Pérsia de “Estado civilizacional”, a exemplo do que ocorre com China e Japão, porque os persas desde longuíssimo tempo exibem forte identidade cultural própria. Ouvimos muito falar de religiões monoteístas como judaísmo e islamismo, mas desconhecemos por completo o zoroastrismo. Ouvimos falar da Torá e do Alcorão, mas não do Zend-Avesta. O zoroastrismo não foi exportado ou difundido, como outras tradições religiosas que partilharam o mesmo berço, e que, distintamente, ganharam boa parte do mundo. Os Estados Unidos e Israel bombardearam Teerã, não apenas para matar a cúpula do regime iraniano e trocar o governo do país alvejado, precipitaram seus mísseis não só em razão do programa nuclear iraniano, mas porque o Islã foi eleito como o grande inimigo da potência ianque, que sonha representar todo o Ocidente. No mundo ocidental, o cristianismo foi reembalado com a feição do capitalismo. As estruturas econômicas amparam a religiosidade cristã, e as lideranças cristãs, conservadoras, chancelam o estado de coisas, inclusive o modelo de produção calcado na exploração da mão de obra humana. O Islã, portanto, é o grande “inimigo cultural”. Trata-se de uma visão de mundo que privilegia a religião muçulmana, relegando aos últimos lugares a atividade econômica, e bens imateriais como democracia, liberdade, liberdade de pensamento e expressão, desenvolvimento científico, entre outros. O capitalismo não é um arranjo de máquinas e infraestruturas, ele é uma mentalidade. Para o capitalismo funcionar bem, é desejável que cada cidadão seja, ele próprio, um capitalista. Entretanto, a Suna, e as jurisprudências nela compiladas, parecem não flexionar para interesses tão escusos e profanos, como os que regem o capitalismo. Outro “inimigo cultural” é a China. Não foi por nada que, depois de trinta anos da revolução armada, o governo chinês promoveu a revolução cultural. Cultura importa sim! A religião de Estado é o maoismo, o que inclui o materialismo ateu. A economia é planificada pelo Estado, havendo restrita livre-iniciativa. E a Rússia representa o catolicismo ortodoxo, um amor exacerbado ao passado, ladeado por tecnologia militar de ponta. É a visão pan-eslavista de mundo. Ora o inimigo islâmico está a derrubar prédio em Nova Iorque, o que não passou de uma estapafúrdia encenação, ora ele está no norte da África, ora ele está nos arredores de Israel, mas sempre ele. Os norte-americanos se recusam enxergar que, vergastar o inimigo, torna-o mais forte, na medida em que ele se caracteriza como vítima. No Alcorão, vemos que judeus e cristãos (e até os zoroastristas) são chamados de “o povo do livro”, dando a entender que, a pregação de Maomé, seria para aqueles que ainda estavam desigrejados, para os que ainda não congregavam nem com os judeus, nem com os cristãos. Maomé mesmo era um admirador de Jesus Cristo. E a religião que ele fundou só perde em número de adeptos para o cristianismo. E o que estamos sentindo é que o remendo está ficando melhor do que a roupa original. O cristianismo está em retração, e, o islamismo, em expansão. Os homens que mandam no sistema estão a perceber que, perderão o controle sobre os corpos dos trabalhadores, quando suas mentes forem amestradas pelos imames e pelos xeiques. Não sei o que pensar sobre essa guerra de civilizações. Tão somente, enxergo com clareza, que preferiria que todos vivêssemos pacificamente, sem que uns tentassem impor aos outros seu próprio modo de pensar. Menos guerra e mais diplomacia. Outro fenômeno que marca a guerra que acontece no Irã é a manipulação da realidade. Não sabemos qual discurso é o verdadeiro, e as imagens que chegam até nós, desconhecemos se são registros do verídico ou algo produzido por inteligência artificial. A narrativa da guerra, afinal, também faz parte da guerra. A guerra é híbrida. Com a copa do mundo ocorrendo em México, Canadá e Estados Unidos, o Irã, muito propriamente, descartou por completo enviar sua seleção para o evento esportivo futebolístico. Os orientais não têm a mesma cara de pau como nós. Não dá para fatiar a vida em pedaços, e ser amigo num ambiente, e inimigo em outro. Peço a Deus, que é exatamente o mesmo, para judeus, zoroastristas, cristãos e islamistas, que frustre toda a violência, e catalise os processos que concorrerão para o findamento do conflito e das mortes. Paz e vida são luz!

Compartilhar: