Milton Santos
Produção teórica genuinamente brasileira. Prova de que somos bem mais do que futebol.
Em 03 de maio de 2026 comemoramos o centenário de nascimento de Milton Santos (1926-2001). Esse brasileiro tinha formação em Direito, mas galgou destaque na seara da geografia. Seus trabalhos nesta área tomaram projeção internacional. Ele dividiu o Brasil em quatro grandes regiões como categoria de análise: norte, nordeste, centro-oeste e concentrada. Sua obra-prima foi O Espaço Dividido (1979), em que tece duras críticas à globalização. De acordo com ele, há dois nichos econômicos em nível global: o central, em que predomina capital-intensivo e alta tecnologia, e o periférico, em que predomina trabalho-intensivo e baixa tecnologia. Ele demonstra que o espaço geográfico é o espaço físico ressignificado pelas relações sociais. Ele introduziu a matriz teórica marxista dentro da geografia, mas seu papel transcende o ofício de alardear uma teoria pensada por um autor europeu. Mais que um difusor do socialismo científico, sua missão intelectual ascende ao patamar de, genuinamente, transformar a geografia numa ciência social. É assim, acima de tudo, que Milton Santos deve ser visto, como um cientista. O de que se trata não é, apenas, de um professor universitário bem-sucedido. Estamos a nos reportar a um clássico do pensamento humano. Um dos grandes intérpretes da realidade social. É no território que se encontram as vulnerabilidades e as potencialidades. Lição miltoniana tão bem aprendida, para quem frequenta um curso de Serviço Social, dada a permeabilidade recíproca existente entre as ciências sociais. Compreender geografia abarca conhecer as relações entre a metrópole e a periferia, esta última concebida como celeiro de matérias-primas, que serão agregadas ao processo fabril, na região planetária central. O espaço geográfico é o palco onde se desenrola nossa vida. Até o dia de hoje percebe-se que a geografia não é uma das disciplinas mais prestigiadas da grade curricular. Procura-se privilegiar disciplinas como língua portuguesa e matemática. De fato, se a pessoa não tem um conhecimento linguístico mínimo, dificilmente compreenderá uma obra na área de geografia. E, além do mais, a geografia inclui interpretação de gráficos e conteúdos mais técnicos como cartografia. Entretanto, a geografia mostra o que outras disciplinas não conseguem fazê-lo. É uma questão de especificidade epistemológica. O que quero pontuar, ainda em tempo, é que o trabalho sério de um intelectual idôneo tem o poder de engrandecer uma área do conhecimento. A dedicação é transformadora. Milton Santos mostrou que a geografia é uma disciplina que se ocupa de relações. Serras, vales, rios, fauna, flora, topografia, clima, tudo isso é ressignificado pelas ingerências antropogênicas. É na relação, entre o ambiental e o humano, que nasce a totalidade de que se ocupa a geografia. Se Marx formulou o materialismo histórico, ao lado de Engels, Milton Santos alumia as relações entre o modo de produção capitalista e os espaços de que ele se serve. Essa discussão, diga-se, é atualíssima. A grande disputa, hoje, é pelos chamados “solos raros”. O setor de tecnologia da informação demanda estes elementos para a confecção de unidades operacionais denominadas hardwares. Passadas tantas décadas, e a guerra no Irã faz parte disso, o petróleo continua dominando a economia mundial, tanto na qualidade de matriz energética, quanto na qualidade de matéria-prima. Uma infinidade de coisas que participam do nosso cotidiano deriva do fóssil mencionado. É, no entanto, um recurso finito. Trata-se de um material originalmente orgânico, que se converteu, por meio de pressão, temperatura, reações químicas várias, no que hoje conhecemos como petróleo. Algo forjado no ínterim, de nada menos, que trezentos milhões de anos. São quatro os fatores de produção: natureza, trabalho, capital e conhecimento. Qualquer que seja nosso paradigma de sociedade, qualquer que seja o regime econômico, será da natureza que extrairemos os meios de que necessitamos para subsistir. Pensar tudo isso é missão do geógrafo. A guerra na Ucrânia, a guerra no Irã, e a guerra em Israel, fazem sobressair o aspecto da geopolítica. Isto é, como o poder político, econômico e bélico no planeta está dividido e organizado, quais são as questões e zonas de conflito. O dissenso sobre o uso do estreito de Ormuz nos recorda da permanência dos aspectos físicos da realidade. Ele também recupera a noção basilar de que o petróleo tem de ser extraído de um local específico, e ser transportado por uma via oceânica com a qual não conseguem concorrer alternativas criadas em curtíssimo espaço de tempo. Fatores primários – leia-se, geográficos – sempre condicionarão fatores de maior sutileza e de maior altitude. Não há como escapar da geografia. Milton Santos operou esse conhecimento com maestria e, por isso mesmo, suas obras sempre serão luzeiros no espaço acadêmico brasileiro e internacional.
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