Jornal Liberdade
Para além do inglês e do espanhol: coreano e mandarim

Para além do inglês e do espanhol: coreano e mandarim

Novidades linguísticas na grade curricular das escolas!

Cléverson Israel Minikovsky
11 de maio de 2026
564 visualizações

O governo do Paraná formalizou acordo de cooperação linguística com a Coreia do Sul, e, doravante, o coreano passará a integrar a grade curricular das escolas filhas do Iguaçu. O governo do Estado do Rio de Janeiro fez algo similar, figurando, no entanto, no polo oposto da relação, a China, eis que o mandarim será parte integrante da realidade colegial fluminense. O argumento? Em ambos os casos, “estaremos nos aliançando a uma potência asiática, líder em setores estratégicos de indústria, tecnologia, comunicação e ciências da informação”. Embora chineses e coreanos tenham olhos puxados, a seleção não foi aleatória. O Estado do Paraná, conservador em política, contratou com um país que, por razões históricas, em dado momento, foi forçado a fazer uma escolha nítida, entre o preto e o branco. No torrão setentrional permaneceram os comunistas, e os coreanos meridionais abraçaram a economia de mercado. O Rio de Janeiro, por sua vez, legatário das campanhas brizolistas, favoreceu os chineses, por haver um ideal de projeto político confluente e por haver uma visão compartilhada. Esclareço que, muito embora um cidadão ocidental, o que abarca a minha própria pessoa, não letrado em idiomas orientais, não consiga distinguir os ideogramas chineses, japoneses e coreanos entre si, tratam-se de idiomas bastante diferentes. A novidade escancara o óbvio: o mundo está mudando. Países que, há poucas décadas eram atrasados, agora se tornaram potências. Por meio de qual expediente? Educação! Então falemos da educação no Brasil. Aqui, o aluno fica anos e anos na escola, e sai dela sem dominar conhecimentos rudimentares de inglês, pelo que nem devemos sonhar com um estudante fluente nessa linguagem. Logo, vem a pergunta: não conseguimos aprender inglês, qual será o nível de aproveitamento de um idioma tão hermético quanto o coreano? Haverá profissionais habilitados para lecionar esse conteúdo? Evidentemente, que as respostas a essas perguntas serão negativas. A disciplina estará na grade curricular mais a título de apresentação, e, quem se interessar, procurará aprofundar seus conhecimentos linguísticos por conta própria. A mudança de paradigma cultural indica uma transformação na economia e na infraestrutura dos países. Os países se tornam internacionalmente relevantes à medida que desenvolvem suas comunidades, e passam a fornecer mercadorias com alto valor de uso aos parceiros de comércio. Não fosse essa guinada, não estaríamos prestigiando os notórios doramas, o mais expressivo gênero de produção cinematográfica coreana. Também tem o K-pop. É claro que as relações entre os países nem sempre são simétricas. Nesse esteio nasceu o globalismo, uma crítica teórica à globalização. Todavia, com todas as críticas que se possa fazer ao modo capitalista de produção, devemos, às transações econômicas entre os povos, o privilégio de entrar em contato com o outro, com o diferente, com o culturalmente divergente. Os neurologistas afirmam que os idiomas ocidentais demandam mais do hemisférico esquerdo do cérebro, responsável pelo pensamento abstrato, lógico e sistemático; ao passo que os idiomas orientais demandam mais o hemisfério direito, responsável por criatividade, desenho mental e empatia. O que está acontecendo neste instante, por conseguinte, poderá estar sendo a grande oportunidade de vivificarmos partes do nosso ser que, até presentemente, permaneciam subutilizadas. Eu sinceramente espero que, tal como nos propomos tentar aprender os idiomas retromencionados, também chineses e coreanos se predisponham a se apropriar de uma das coisas mais belas que temos em nossa vida, a língua portuguesa. Gize-se que, 05 de maio, foi o dia mundial da língua portuguesa, vernáculo falado por mais de 265 milhões de pessoas no planeta Terra. A aprendizagem linguística é parte fundamental e imprescindível da reforma do mundo. Antes da promoção dos encaminhamentos devidos, precisamos estabelecer claramente o que queremos e como vamos fazê-lo. E isso envolve diálogo, o que supõe comunicação assertiva e efetiva. Ainda que o inglês seja hegemônico no cenário comercial mundial, a aprendizagem do idioma nativo do parceiro é requisito, se a parceria logra e passa a exigir uma relação mais íntima e duradoura. Em muitas das vezes, ali, onde está a diferença, também mora a maior complementaridade. Precisamos nos explorar reciprocamente, na melhor acepção do termo. Mais que comprar e vender, almejamos transferência de tecnologia, aprendizagem mútua, investimento em infraestrutura, soluções de engenharia. Se o modelo educacional sul-coreano é um dos mais eficientes do mundo, poderíamos nos perguntar pelas razões do sucesso e estudar a viabilidade de replicar alguns dos seus métodos, na medida do possível. Os acordos com o Oriente haverão de ser luz, afinal, não é de lá que nasce o Sol?

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