A Professora Dona Abelha
Participando de uma capacitação com um coach inseto
Conta-se que, muito antigamente, as pessoas idosas perderam seu prestígio, de modo que as gerações mais novas não lhes prestavam o respeito e a consideração cabíveis. Sobreveio, então, uma estiagem bastante longa e, na sequência, carestia de recursos alimentares. A tal ponto que, todos os estoques foram consumidos, e não restou nem um pouco para a semeadura. Ato contíguo, foram consultar os idosos sobre qual seria a possível saída. Um homem, de idade avançadíssima, aconselhou que fossem usadas vassourinhas para varrer os caibros e as gretas dos armazéns, e que as poucas sementes, obtidas por meio desse procedimento, fossem empregadas como semeadura. Dito e feito. As sementes tornaram-se plantas viçosas, e pôde-se segar farta colheita. Lembro-me de que o meu professor, de direito civil, verbalizava “vocês terão de tirar leite da pedra”. Por conta do inchaço do mercado de trabalho, para as pessoas com formação na área jurídica. Moisés, o legislador dos judeus antigos, e o líder hebreu que os tiraria da terra da escravidão, o Egito, para adentrarem a uma terra de que “mana leite e mel”, fez sair água potável da rocha, batendo nela com cajado. Não era leite, mas podia muito bem matar a sede. E onde e como fica o mel? Dias atrás, fiz um curso de meliponicultura urbana. Apicultor é quem produz mel com enxames de abelhas com ferrão. Já o meliponicultor, usa abelhas sem ferrão, e, para além do mel, extrai própolis, pólen e outros derivados do trabalho dessas pequenas voadoras. Durante o curso, foi exibida uma melgueira, superabastecida com mel, dum enxame cuja caixa situava-se no décimo quinto andar de um prédio, no centro da cidade de São Paulo. Assim, como a vaca produz leite para amamentar seu ternero, e nós, humanos, apropriamo-nos da maior parte dessa excelente bebida, também a abelha produz mel para atravessar o inverno, período em que há menor floração, e tomamos o produto do seu esforço, para nós. Metaforicamente, poderíamos dizer que a abelha “tira mel da pedra”. São Paulo, até onde sei, é mais concreto do que flor. A abelha dribla a escassez. Oportunidade vem de “ob portus”, e refere-se à capacidade de aproveitar o vento que conduz a embarcação até o porto. É exatamente isso o que as abelhas estão fazendo. As oportunidades não devem ser apenas encontradas, mas produzidas. Não digo que não existam problemas estruturais. Contudo, as estruturas urbanas opunham-se aos interesses de nossa incansável coletora de doçuras. O inseto social, acerca do qual somos convidados a refletir, confronta-nos no sentido de avaliarmos o quanto estamos aproveitando as potencialidades do ambiente. Reclamamos muito, fazemos pouco, deixamos as coisas passarem. Um espaço social pode apresentar baixo nível de permeabilidade, mas nenhum espaço é cem por cento impermeável. Perceba-se que, para além do próprio sustento, as abelhas, no seu ofício de visitar flores, promove saúde genética das plantas anfitriãs, eis que viabiliza cruzamento dos indivíduos machos e fêmeos. As abelhas, portanto, fazem o bem a si mesmas e, de quebra, ao ambiente de que participam. As abelhas, em resumo, transpiram e nos inspiram. A criação dá glória a Deus. Somos mais importantes que abelhas. Somos melhores que abelhas. Assim sendo, não devemos ficar aquém delas, mas desenvolver uma performance muito melhor. Mais de cinquenta por cento dos acadêmicos, abandonam o curso superior escolhido, ainda antes da conclusão. No passado, o difícil era ingressar na universidade. O problema, agora, mudou de lugar, o problema é permanecer nela. Uma parte considerável dos desistentes concentra-se no período de confecção do Trabalho de Conclusão de Curso. Dito bem claramente: às portas da formatura, os estudantes deixam de pôr as mãos no diploma, em função da incapacidade de produzir um texto, de doze a quinze páginas, dentro da metodologia científica. Não é vergonhoso? O lado trágico e belo de tudo isso, é que a vida foi feita para os fortes. Quando os fracos desertam, sobressai a virtude do forte. Tenho compaixão para com os fracos, dado que sou cristão, mas não me confundo com eles. A vida é uma luta, o mundo, um campo de batalha. Não se pode espanar no primeiro apertão. A frustração da nota indesejada, logo nas primeiras provas, não pode nos abalar. Se for para esperar uma condição emocional agradável, para então realizar uma faculdade, esqueça. Os prazos vinculam-se a datas, e não ao sabor de nossos sentimentos. A lição que tiro disso tudo é essa: nesta vida, só prospera, quem consegue ser maior do que uma abelha. Justamente ela que, a despeito de enfrentar a saga de uma selva de prédios, exibe o lado doce, de um mundo aparentemente amargo ou insípido. O exemplo da abelha é luz!
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