Jornal Liberdade
Os EUA e o CV e o PCC

Os EUA e o CV e o PCC

O que acontece no quintal do vizinho impacta minha vida e vice-versa.

Cléverson Israel Minikovsky
27 de abril de 2026
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Os Estados Unidos da América classificarão o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, facções criminosas brasileiras com alcance internacional, como organizações terroristas. O fato de o Brasil ter sido avisado com anterioridade, na pessoa de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, pode ser considerado uma deferência ao nosso país. Os ianques classificaram cartéis mexicanos sem comunicado prévio. O objetivo da medida é facilitar o efeito de asfixia financeira. Sem poder usar o sistema bancário, a logística do crime fica comprometida. Cria-se um obstáculo para a lavagem de dinheiro. A radicalidade da decisão teria o condão, inclusive, de congelar ativos já ingressados no sistema bancário. O presidente Lula manifestou-se a respeito com preocupação, pois ainda que sob um legítimo pretexto, estaríamos tendo malferida nossa soberania nacional pela aludida intervenção externa. Raramente concordo com a política externa norte-americana. No presente caso, entretanto, devo dar a mão à palmatória. As atividades do crime movimentam dinheiro sem criação de valor. A economia do crime está para a economia formal, como o câncer está para o organismo que o hospeda. Se não combatida a economia do crime, chega a um ponto em que todo o sistema entra em ruína. Um dos carros-chefe dessa atividade, aliás, é o comércio de entorpecentes, que mina a saúde e a vida do cidadão-trabalhador. Mais uma vez nos deparamos com o parasita que viceja graças à desnutrição de sua base de sustentação. Os norte-americanos são o povo que mais usa droga em todo o mundo. Isso, por si só, já seria motivo para tentar coibir a articulação dos agentes do tráfico de entorpecentes. Gize-se que, se o governo brasileiro, em todas as suas esferas, fizesse força para adimplir a Constituição Federal e a legislação em vigor, os norte-americanos não precisariam colocar em marcha diligência alguma. Essa intervenção externa é o reflexo de uma negligência governamental crônica. Desmantelar facções criminosas, deveria ser uma das prioridades do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Precisamos causar a ruptura da rede do crime. É preciso dar um basta na lógica da retroalimentação. Para além de obstruir a circulação do produto da venda do ilícito, calha minar o canal por meio do qual novos membros são recrutados para a organização, ou seja, o problema situa-se na passagem pelo sistema carcerário. As facções criminosas prosperam porque há conexão entre os recluídos nas unidades prisionais e os que se acham do lado de fora. Mantendo-se momentaneamente suspensas as leis da ética, se alguém me perguntasse se o tráfico de drogas traz algum bem ao Brasil, responderia que, caso o destinatário fosse residente nos Estados Unidos da América, ele proporcionaria o ingresso de dólares no Brasil, justamente quando precisamos ter essa moeda. Mais ou menos como acontece em Cuba, onde os dólares aportam lá dentro por meio dos serviços de prostituição sexual. Do ponto de mira conceitográfico faz todo sentido classificar CV e PCC como organizações terroristas. Se alguém é devedor a essas organizações e permanece em inadimplência, como é feita a cobrança? Até onde sei, o devedor paga a dívida com a própria vida. Bem, isto é terrorismo. E quem pratica terrorismo é terrorista. Mas o terrorismo vai além. Porque é um terror ter dentro da própria casa uma pessoa consumida pela droga. O usuário, no começo, é um consumidor de drogas, mas a equação, ao longo do tempo, inverte-se, e ele passa a ser consumido pela droga. A dependência corrói as economias da pessoa e da família, a capacidade para o trabalho e para o estudo, destrói os vínculos familiares e comunitários, rouba da pessoa sua dignidade. Estados bem organizados, geridos por políticos e burocratas comprometidos, teriam o poder de acabar com o tráfico de drogas no mundo em poucos dias. Todavia, enquanto da Colômbia embarcar contêineres, carregados de drogas, para os Países Baixos, isentos da aferição dos fiscais de alfândega, dentro dos quais, no retorno, voltam armas que deveriam ser de uso exclusivo das Forças Armadas na nação, e que caem nas mãos das FARC, ficará difícil, senão impossível, acabar com essa nefasta atividade. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos pressionam cartéis e outras organizações criminosas, existe o fator “vista grossa”. Deixam-se passar “n” carregamentos de drogas, e, pontualmente, um veículo é pego, “para mostrar serviço”. Então o condutor fica um tempo no cárcere, conforme tudo anteriormente previsto, até egressar, e retomar o que vinha fazendo. E assim move-se o mundo, promovendo uma justiça meia-sola, punindo alguns, tolerando outros, centrando-se mais em aparência do que em essência. Explorando as fraquezas do ser humano, os mais espertos fazem os esquemas convergirem para os seus interesses políticos, econômicos e sexuais, em resumo.

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