Jornal Liberdade
As contas nossas de cada dia

As contas nossas de cada dia

O artigo aborda o entrelaçamento de finanças públicas e pessoais em ambos os sentidos

Cléverson Israel Minikovsky
26 de março de 2026
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Notícia de 11 de março de 2026, calcada em pesquisa promovida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), veio a informar que 29,6% das famílias brasileiras têm parcelas em atraso, ao passo que o grau de endividamento chega ao topo dos 80,2%. Essa distinção é bastante relevante: o maior percentil aponta para a extensão do conjunto dos que contraíram pagamento a prazo, ao passo que o menor percentil associa-se ao grupo dos que não têm honrado o parcelamento dentro da data estipulada. Uma terceira informação: pelo quarto mês consecutivo diminuiu o inadimplemento no país. O crediário é o instituto responsável pelo funcionamento dos estabelecimentos comerciais nas épocas de desfavorável sazonalidade. Não há problema em se endividar. O que se deve evitar é o endividamento irresponsável. Cada um deve analisar a sua própria capacidade de endividamento. Os compromissos, afinal, deverão ser honrados. Um critério muito importante é o da necessidade. Não faz sentido realizar pagamento a prazo, quando não se tem o dinheiro suficiente para realizar o pagamento à vista, e sujeitar-se aos encargos de juros, se o item da aquisição não é absolutamente indispensável. Já o índice de inadimplência pode ser conjugado com duas situações diferentes: 1) insolvabilidade em razão da assimetria entre rendimentos pessoais e tamanho da parcela a comprometer esse valor global; 2) baixo nível de motivação para resguardar a higidez do próprio nome. Como o índice de inadimplemento vem retraindo, numa tendência que abarca vários meses consecutivos, ficamos mais propensos a crer que os atrasos dos compromissos refletem mais os gargalos estruturais da economia brasileira. A economia nacional espelha a economia das pessoas físicas, sendo a recíproca inversa igualmente verdadeira. Os números aqui mencionados são indicadores econômicos, mas também descrevem hábitos de consumo e valores culturais do nosso povo. Na presente gestão federal tem se percebido um incremento no poder real de compra do trabalhador/cidadão, bem como a maior massa salarial da série histórica. Vivemos num mundo onde as pessoas estão endividadas, as empresas estão endividadas, os Municípios estão endividados, os Estados estão endividados, e os países estão endividados. E, mesmo que valha o conselho dos que afirmam, “dívida não se paga, administra-se”, empenhemo-nos amiúde para que as coisas não saiam do controle. Quem tem dívida, sempre é impactado quando o dinheiro fica mais caro. Com a guerra no Irã, sobe o preço dos fósseis, toda a economia fica inflacionada, sobem os juros. Sou oriundo de uma família em que a filosofia econômica sempre foi esta: se tem dinheiro compra, se não tem, não compra. A relação que uma pessoa tem com o dinheiro é a relação que ela tem com ela mesma. Se você não pode ver uns pilas na carteira, porque tem de sair gastando, padece da falta de inteligência emocional, como aquela criança que está de barriga cheia, mas não pode ver um pedaço de chocolate, porque tem de comer. Outra circunstância é a pessoa em situação de acumulação. Em muitas residências faltam armários para guardar roupas, calçados, outros adereços de uso pessoal. Outra face da moeda mostra que poucas pessoas, no Brasil, possuem grandes bibliotecas de uso exclusivo e pessoal. Nossas economias domésticas mostram quem somos. É o Abaporu de Tarsila do Amaral: muitos sapatos para os grandes pés, nada de livros para a cabeça pequena. Quando a renda de uma pessoa cobre todas as suas necessidades, e as de sua família por quem é responsável, de modo que a pessoa pode se dar o privilégio de usar a renda para o que bem quiser, seguramente é possível afirmar que o uso do dinheiro mostra quem a pessoa é. O exercício de compras leva a observação analítica, do psicólogo clínico, a um patamar mais elevado: quando a pessoa compra algo de que não precisa com o dinheiro que ela não tem. Outra distinção é a que delimita as espécies de desembolso: gasto não é o mesmo que investimento. Ir a uma pizzaria, ou adquirir uma nova roupa, quando estão sobrando mudas em casa, indubitavelmente, é gasto. Fazer uma faculdade, ou destinar parte da poupança numa aplicação de corretagem, é investimento. Para organizar as finanças, uma boa ordem de prioridade seria esta: emergência, urgência, necessidade, utilidade, conveniência, bens voluptuários. Se, pois, o que é necessário não foi atendido, deve-se procrastinar a aquisição, por exemplo, do que é meramente conveniente. Certamente, saber administrar o próprio dinheiro, faz parte da vida adulta. Por isso mesmo, os melhores colégios integraram à grade curricular a disciplina de educação financeira, logo no Ensino Fundamental, haja vista a não desimportância da aludida temática. Boa gestão das economias domésticas é luz!

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