Jornal Liberdade
Acompanhamento psicológico e religião

Acompanhamento psicológico e religião

A organização de funções não pode comprometer os elos da totalidade. Uma reflexão sobre a conveniência de abordar assuntos espirituais e religiosos em consultórios psicológicos.

Cléverson Israel Minikovsky
13 de abril de 2026
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Notícia de 06 de abril de 2026, exposta no sítio de Migalhas, informa que o Supremo Tribunal Federal analisará em plenário norma que veda uso de religião na psicologia. O encadeamento da ação judicial tem como ponto de partida a Resolução 7/2023 do Conselho Federal de Psicologia. Várias Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIns) versando sobre a matéria alegam violação ao princípio de liberdade de crença. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Advocacia-Geral da União (AGU) opinaram pela validade da Resolução aludida. Dias atrás eu ouvia um podcast, no formato de entrevista, e a entrevistada era uma psicóloga que falava das novas gerações. Ela dizia que os adolescentes de agora estão bastante apassivados. Ainda de acordo com ela, tratar-se-ia da “geração que menos faz sexo”. A razão disso tudo? Ausência do desejo. O desejo vem da falta. Ela argui que nossos filhos estão com o smartfone de última geração em ambiente climatizado, nada lhe faltando. Consoante leciona Freud, com a diminuição do desejo, aumenta a pulsão de morte; com o aumento do desejo, aumenta a pulsão de vida. É o binômio thanatos versus eros. O desejo, portanto, seria o motor da nossa existência. Freud faz sobressair o desejo sexual. Jung afirma que o sentimento religioso é mais intenso do que a libido. Santo Agostinho afirma que só descansaremos quando o nosso coração repousar em Deus. O cemitério é o lugar, em tese, dos plenamente realizados. Quem vivo está, coloca-se em busca de algo que ainda lhe falta. Não adianta dissecar a vida sexual do sujeito, no consultório do psicanalista, ignorando a dimensão espiritual. Não raro, o critério para casar-se com B, e não com A, é a tradição religiosa. O desejo está encetado para as realidades sobrenaturais. O desejo é o que temos de mais profundo. Eu atribuiria o primeiro grande tratado de psicologia a Aristóteles, autor de A Alma. Evidentemente, ao longo de todos estes séculos, da Velha Grécia aos nossos dias, a metodologia de abordagem mudou muito. Mas o ser humano, em sua essência, permanece o mesmo. A permanência das visões de mundo religiosas testemunha que a religião integra o ser do homem enquanto tal. Negar o ingresso da religião no atendimento clínico psicológico é acolher metade do paciente e deixar a outra do lado de fora. Como que um plano de trabalho pode surtir o efeito desejado, se ele peca desde o início, ao se recusar aceitar o diagnóstico do modo como ele se apresenta? O ser humano real é religioso, mesmo que a sua religião seja o ateísmo. Dentro de um cronograma de acompanhamento, a religião tem de ser um dos tópicos obrigatórios a serem enfrentados. Ninguém entra em harmonia consigo mesmo, passando ao largo deste tema. Quanto ao profissional psicólogo, ele carece ser letrado minimamente em religião, a fim de dispensar a atenção de perfil adequado a este assunto reportado. Uma ingerência eficaz, sobre um contexto dramático, na vida de um indivíduo, não pode deixar de fora nenhuma área sensível da existência. E a religião é uma destas áreas. Se a psicologia é entendida como ciência, e ela de fato o é, sua metodologia deve estar calcada no materialismo. Não no materialismo metafísico, mas no uso dos meios puramente racionais, no uso dos recursos palpáveis. A pessoa humana, todavia, não se satisfaz com argumentos lógicos, e tende a buscar motivos metaempíricos para fundamentar seu modo de proceder. Isso tudo sinaliza para uma psicologia holística e integrativa, por mais desgastados que estes termos estejam, por conta de terapias pseudocientíficas. Não basta atender e acompanhar o paciente, é preciso “pescar” o paciente. Este, aliás, é um dos ensinamentos do mestre Jesus Cristo. Se o declínio do desejo explica muita coisa, outro fator explicativo é a fragilização do sentimento de pertença. A religião, quando enfraquece, esmaece o liame comunitário que liga os sujeitos entre si. As redes sociais transmitem a sensação de conectividade, mas os laços sociais são tênues. O divã do analista vem a ser o lugar perfeito para conciliar aspectos conflitantes da prática religiosa. A religião pode ser fator gerador de identidade comunitária e cultural, mas pode, por outro lado, gerar o efeito rebanho. Por conseguinte, quem congrega em uma determinada denominação, deve conciliar a afirmação do eu individual com o eu coletivo. Apartando-se do “homem medíocre” de Ingenieros, bem como do “menino livre” de Nietzsche, chega-se a uma saudável medianeidade. Tudo é uma questão de equilíbrio, não há, destarte, motivo legítimo para sonegar um dos itens pesados na pesagem, se a meta é a justa medida. A ditadura da religião deve ser evitada, mas fiquemos alertas para com a ditadura daquilo que é supostamente científico. Religião no consultório pode tornar-se lâmpada a luzir!

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