Jornal Liberdade
O agora “saudoso” Jürgen Habermas

O agora “saudoso” Jürgen Habermas

Falecimento de Jürgen Habermas (1929-2026), grande expoente da filosofia e da sociologia

Cléverson Israel Minikovsky
30 de março de 2026
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Em 18 de junho de 2026 Habermas completaria 97 anos de vida. Mas não deu. O laço da morte não permitiu. Em 14 de março do corrente ano o grande intelectual alemão nos deixou. Eu nasci exatamente no dia em que Habermas completou 50 anos, em 18 de junho de 1979. Se Deus assim quiser, em 18 de junho de 2029 completarei 50 anos. E, Habermas, se vivo fosse, completaria 100 anos. Habermas foi o grande expoente da Escola de Frankfurt que pôde, parcialmente, ser contemporâneos a nós, seus leitores. Diferente dos fundadores da escola, Habermas acreditava que o projeto do iluminismo não estava todo falido. Se a racionalidade capitalista e a racionalidade socialista erraram, ele tira o foco da economia e do Estado, para pô-lo no terceiro setor, a sociedade civil e suas organizações. Fiel a Kant, ele postula a necessidade de uma ética universal. Mas essa universalidade não está no sujeito individual, e sim na comunidade, composta por elementos heterogêneos. A comunidade ideal seria o referente da comunidade real. É na câmara de comunicação e debate que os representantes da coletividade estabelecem o que seria colocado como meta e o modo pelo qual ela seria concretizada. Habermas continua apostando na razão e na democracia. Quanto mais próximo a comunidade real estiver da comunidade ideal, melhor. A comunidade ideal é marcada pelo senso de responsabilidade, pela honestidade, pela transparência, pela boa-fé, pela ausência de reserva mental. Habermas defendeu a ética do consenso por ter sido testemunha ocular dos nefastos resultados da Segunda Guerra Mundial, bem como compreender a valia da União Europeia, como instância maior de democracia, de entidade política e de engenharia social para o continente. Diferente das outras éticas, é uma ética procedurística. Os axiomas não são dados aprioristicamente. O projeto da modernidade ainda é viável, segundo o autor aludido. Habermas transitou entre a filosofia e a sociologia por entender que a filosofia se desencaminhou, perdeu-se em uma discussão infindável de conceitos. Não podemos, não obstante, desprezar a contribuição do pensamento habermasiano para a filosofia. Os neopositivistas, calcados na linha delimitadora estabelecida pela epistemologia kantiana, criam que o debate promovido pela filosofia não é viável. A única forma de saber que faz algum sentido seria a ciência. Habermas ingressa aqui e fala que a sociedade capitalista é guiada pela razão instrumental. O complexo indústria-Estado-exército-ciência-política, e a expressão poderia se alongar ainda mais, trabalha para fins que nunca foram postos em discussão. De fato, a razão instrumental não consegue fazer este debate. É preciso que trabalhemos com a razão dialética, esta sim, capaz de abordar criticamente os objetivos teleológicos e as premissas em que a atuação social está calcada. Os neopositivistas alegam que esse campo de discussão conceitual é teoricamente alagadiço. No dizer de Wittgenstein “sobre aquilo a respeito de que não se pode falar, deve-se calar”. Habermas, no entanto, exibe aos neopositivistas que eles não passam incólumes à admissão de postulados. Quando eles admitem que a ciência seria capaz de  trazer respostas para as demandas humanas, quando eles se permitem criticar outras linhas filosóficas que não a sua, de um jeito ou de outro, estão a recepcionar que os seres humanos acreditam minimamente uns nos outros, acreditam que eles são falantes da verdade, que os interlocutores estão de boa-fé, admitem que a própria especulação filosófica é viável. São requisitos invisíveis, inseparáveis do discurso que transcende a trivialidade, seja ele qual for. Mais ou menos como o princípio da não contradição, mesmo para refutá-lo é necessário admiti-lo. Habermas, portanto, coloca os neopositivistas em aporia insuperável. Na obra mais importante do pensador brevemente biografado, Teoria da Ação Comunicativa, discutem-se questões como verdade, correção e validade. Procura-se caracterizar as proposições ou os discursos recepcionáveis a partir de critérios mínimos de observância. Sendo assim, a verdade não é algo objetivo e externo à realidade, como no pensamento de Platão, ela é algo que se constrói, algo que deriva do consenso duramente construído pelo concurso de muitas vozes e vieses. Na perspectiva da reviravolta linguística da filosofia, a teoria habermasiana passa do modelo atômico das assertivas ou a forma geral da proposição, para a revolução dentro da revolução, isto é, vislumbra-se a perspectiva predominantemente pragmática da comunicação. Nisso, aliás, em tempo, Habermas é devedor a Peirce. Na qualidade de um dos pensadores mais influentes do nosso tempo, Habermas conseguiu a proeza de encarnar o intelectual figadalmente radicado na concretude da vida humana, ao mesmo tempo em que tudo o que ele edificou guarda relação com o que os grandes gênios que lhe precederam teorizaram. Esse atrelamento à realidade empírica e à tradição das ciências humanas e sociais atende a um princípio caro a Marx, notório como práxis. É o nível de práxis que define a estatura de um intelectual, razão pela qual Habermas figura entre os gigantes do pensamento humano. Indubitavelmente, foi uma vida de muita luz!

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