Jornal Liberdade
Dialética: a mudança que sempre permanece

Dialética: a mudança que sempre permanece

Categorias abstratas e a realidade concreta: uma íntima relação.

Cléverson Israel Minikovsky
06 de abril de 2026
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Hegel apresentou a dialética como parte intrínseca do movimento do Espírito Absoluto. Marx, acatando o materialismo de Feuerbach, renunciou ao idealismo do mestre, para apropriar-se da dialética a favor da história da matéria. A realidade seria regida pelo dinamismo da matéria. O materialismo não poderia ser estático (como em Feuerbach). A dialética funciona assim: tese, antítese e síntese, ou, afirmação, negação, e negação da negação. O socialismo soviético teve data para iniciar e teve data para findar. Mas a dialética precede a Revolução Russa, bem como a sucede. O desenvolvimento das forças produtivas faz com que a mão de obra seja redirecionada para os trabalhos predominantemente intelectuais. A década de 50, do século XX, foi aquela em que os Estados Unidos da América atingiram seu auge em termos de mecanização. A partir daí começamos a ver a guinada para a informação, de sorte que, três décadas mais tarde, o número dos trabalhadores que atuavam no ramo de informação excedia aquele que sinalizava a presença de trabalhadores nas linhas de produção fabris. E, agora, com o rápido avanço da inteligência artificial, retraem as profissões baseadas em gestão da informação. Advogados, administradores, contabilistas, auditores, fiscais, jornalistas, escritores, tradutores, revisores, programadores, professores, veem a relativização dos seus fazeres. E, muitos dos tais “influencers”, vão mais além e proclamam a aniquilação destas profissões, o que, sem dúvida, é um tremendo exagero. O que demandava esforço físico passou a ser realizado por máquinas, e, neste instante, o que demanda processamento de informação passa a ser realizado por máquinas. De um tal modo que, aquele que se acha em busca de emprego, pode vislumbrar mais chance em áreas de hardware do que em áreas de software. A mercadoria que se quer comprar, agora, é o servidor, é o cabeamento. A preocupação não repousa sobre um novo programa ou aplicativo, ela se acha vinculada à produção de energia para que os servidores funcionem. Toda vez que o nível da técnica se eleva, e o respectivo ramo de produção assiste ao fenômeno de a sua taxa de lucro ter uma maior participação na taxa de mais-valia, a demanda é transferida para aquelas áreas onde o desenvolvimento da técnica permaneceu retardado ou menos célere. A oportunidade de trabalho desloca-se de um ponto do sistema econômico a outro. Talvez a dialética tenha sido mal interpretada pelo próprio Marx. Porque ele postula a prevalência do socialismo no mundo após a inevitável derrocada do capitalismo, aí sim, ainda segundo ele, inaugurando a verdadeira história humana. Porém, como a sociedade socialista pode permanecer, se a dialética a tudo arrasta consigo? A dialética tem melhor servido para ilustrar momentos pendulares da trôpega economia capitalista do que para antever o seu findamento. O desenvolvimento da técnica não para. Mas ele está bem longe de ser uniforme, concentrando-se ora em uma área de interesse, ora em outra. A preocupação estratégica, dos Estados capitalistas, ora acena para a matriz energética, ora acena para necessidades militares, ora aponta para inovação tecnológica, esta, por sua vez, com o intuito de produzir itens de valor agregado. Todos, a todo momento, querem permanecer ou se tornar relevantes, no cenário econômico e geopolítico internacional. Nunca antes tivemos tantos meios de comunicação e informação à disposição da diplomacia, e mesmo assim não conseguimos resolver nossos problemas mediante tratativas. Então a guerra da Ucrânia e a guerra do Irã emergem neste contexto. Qualquer que seja o neopositivismo ou o racionalismo crítico a defenestrar e aviltar o conceito de dialética, esta ideia tão simples perdura sendo o filtro intelectual da realidade mais ajustável aos fatos. O foco de concentração, aliás, é contraintuitivo não só na seara tecnológica e econômica, mas também no plano das mentalidades. Estamos numa época em que os idosos fomentam ideologias libertárias, ao passo que os adolescentes são conservadores, e apáticos à condição social desfavorável dos menos integrados à civilização e seus recursos. Nos Estados Unidos da América verificam-se conversões em massa ao catolicismo, e eu creio que isso espelha apenas em parte o fato de Leão XIV ser ianque. A dialética é doble, ela é revolucionária e reacionária. Ao mesmo tempo em que ela supera uma etapa, ela resgata e repristina os momentos anteriores do universo. É uma mescla de mudança e permanência, de evolução e repristinação. É relevante e necessário acompanhar tendências. No entanto, o defeito, se assim se pode dizer, das tendências, é que elas comportam-se como giroscópios. Oportunidade vem de “ob portus”, isto é, traduz a conveniência do vento que leva ao porto. Quando a oportunidade aparece, precisa-se agarrá-la com mãos fortes, sem delongas. A realidade é dançante, acompanha a batucada da tal “dialética”.

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