
Filosofia: esquema em formato de pirâmide?
Filosofia não é fraude, ela é o desmascaramento dos fraudadores!
Dias atrás eu ouvia a fala de um influencer, quando ele disse que a filosofia é idêntica a um esquema de pirâmide. Segundo ele, a filosofia, na prática, não serve para absolutamente nada. Ela oferta plateia, emprego e salário aos professores da disciplina, e nada mais. O único modo que alguém consegue ganhar dinheiro com filosofia é ensinando-a a outras pessoas que, por sua vez, se quiserem ganhar dinheiro com ela, terão que ensiná-la a outros. Na economia, explica-se que as estruturas em pirâmides calcam-se em um modelo não sustentável, apoiado em outro modelo não sustentável. A lei dos crimes contra a economia popular tipifica estes esquemas como conduta criminosa. Em tempo, veja-se que o legislador pátrio não enquadra o ensino de filosofia na legislação a pouco aludida. Os filósofos já identificaram esse tipo de vício. Tomás de Aquino disse que, na série de causas eficientes, haverá uma de que derivam as posteriores, sem que ela própria seja causada, dito de outro modo, haverá, em algum momento, uma causa incausada, enfim, uma causa que seja o fundamento de si mesma. De igual modo, se um modelo insustentável está calcado em outro modelo insustentável, na ordem dos modelos sustentadores, ou haverá de existir pelo menos um robusto e efetivamente sustentável, ou toda estrutura haverá de colapsar. Como em dois milênios e meio a filosofia segue firme, presumo que esse firme fundamento exista em alguma instância. Feito este introito, afirmo que a filosofia não está fechada em si mesma. Ela é para todos. Ela ensina a pensar. Todas as áreas de atuação requerem pensamento crítico. Quando o tal influencer afirma que a filosofia não dá dinheiro, não coloca pão na mesa, simplesmente percebo que ele desconhece por completo a missão do saber filosófico. Não é questão de certo ou errado, é questão de ignorância crassa. A filosofia não existe para auferir pão, os que se colocam em busca do que a filosofia pode ofertar, já estão saciados de pão, e querem alimentar o espírito. A filosofia não pretende desbancar nenhuma religião. Pessoas diferentes, lendo as mesmas obras filosóficas, podem entender, uma, que a religião é o caminho, e, outra, por sua vez, que a religião é coisa palatável ao poviléu, cabendo aos sábios os mistérios. Uma das missões da filosofia é fortalecer as razões fracas, ou para usar uma terminologia mais recente, desenvolver a inteligência das pessoas. Chamo a atenção para o fato de que, vez por outra, o exercício de uma atividade intelectualmente modesta, pode proporcionar mais dividendos do que outra, transpassada por conhecimentos teóricos nem um pouco leigos. Eventualmente, mas não sempre e necessariamente, uma pessoa pode ampliar, pela filosofia, seus horizontes de mundo, e, com isso, encabeçar uma atividade econômica altamente lucrativa. Isto é um potencial efeito da filosofia, mas não é a meta primeira da filosofia. Quando alguém diz que a filosofia não ocupa uma posição confortável no mercado, sinto o dever de esclarecer que a filosofia precede o mercado, temporal e teoricamente. O mercado deixará de existir e a filosofia continuará soberana. A filosofia é o viés que acusa as limitações e contradições do tal mercado. A filosofia ocupa o topo da pirâmide de Maslow. Quem não tem abrigo e nem alimento, terá dificuldade em nutrir tempo e amor à especulação filosófica. Eu disse “dificuldade” e não “impossibilidade”. Porque já vi quem abrisse mão de uma refeição para comprar um livro de filosofia. Excelente escolha! Ficou com a melhor parte! Enquanto as pessoas jovens estão mirando carreiras profissionais, consoante a perspectiva de renda potencialmente auferível, a filosofia nos ensina a nos contentarmos com pouco, extraindo toda a felicidade desse pouco. Enquanto todos gritam, em jogral, “dinheiro, dinheiro, dinheiro”, a filosofia ensina o desapego. O sistema promete que seremos pessoas hiperconectadas, ao passo que Schopenhauer sentencia: “A solidão é o patrimônio dos espíritos superiores”. Enquanto outros correm desenfreadamente em busca de aprovação, o filósofo é a própria validação de si. Nada disso eu entendia, até quando eu mesmo precisei viver este estilo de estar no mundo. Em síntese, os influencers estão dizendo que martelo não serve para nada, pois, ao que parece, não é possível roçar grama com ele. A salva que faço é esta: martelo serve para bater prego e não para roçar grama. Fato, é que não se discutem números complexos com quem usa os dedinhos para resolver cálculos de adição e subtração. O mais triste de tudo, é que vejo cegos sendo guiados por cegos, influenciados e influenciadores, respectivamente. Três décadas de estudos filosóficos me mostraram que a filosofia não veio do nada, e que ela continua sendo promissora quanto a que patamar, com ela, poderemos chegar. Filosofia é luz!
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