
Alguns números da Alemanha atual
A economia alemã e a economia mundial
Notícia de 17 de agosto de 2026, publicada no Deutsche Welle, informa que, na Alemanha, um em cada dez jovens, não trabalha e não estuda. Esse número não é tão ruim quanto o da União Europeia, que chega a 12,9%. No Brasil, o grupo homólogo integra 24% do total do conjunto. A displicência em relação à atividade laboral se choca com a falta crônica de mão de obra no mesmo país europeu, que tem recorrido sistematicamente à mão de obra estrangeira. Dois dias mais tarde, em 19 de agosto de 2026, o mesmo canal noticiava que 190 mil negócios encerraram suas atividades, em 2025, na Alemanha. A salva, é que, disso tudo, apenas 13% deveu-se a processos propriamente falenciais. A maioria relaciona-se a proprietários que envelhecem e não têm sucessores para levar o negócio adiante. No dia 20 de agosto de 2026, o canal R 7 anunciava que, durante o verão de 2026, 14.000 pessoas morreram por causas térmicas na Alemanha. Vez por outra, a temperatura tem excedido 41° C. As pessoas mais propensas a óbito por estresse térmico são as maiores de 75 anos, sobretudo se apresentam situações de saúde preexistentes. Aqui fica clara a noção de policrise, o que se espraia da economia à mudança climática. A economia global está desacelerando, e mesmo os países desenvolvidos têm sido impactados por este movimento. Lado outro, é que se acha em curso uma nova dinâmica cultural. Os valores de antanho não são os valores de ora. Via de regra, o alemão continua sendo disciplinado e aplicado ao trabalho, mas esse zelo de se vestir com a indumentária de um obrador já não é mais um consenso absoluto e generalizado. A Europa tem mesclado contratação de mão de obra importada e xenofobia. Quando a guerra da Ucrânia começou, houve acolhimento de retirantes, e agora o governo alemão começa a fazer contas do impacto dos serviços públicos, ofertados a esses ingressantes, no erário, e acham-se em andamento políticas migratórias de repatriação. O fechamento de empresas espelha a pirâmide demográfica invertida, outro fenômeno global. O movimento do pós-guerra, essencialmente expansionista, em que nasciam mais pessoas, o PIB projetava-se em ascendente no gráfico, havia uma expectativa otimista em relação à vida, agora se depara com a retração. As pessoas esperam menos da vida, de si mesmas e do mundo. Constituir patrimônio e ser alguém no mercado de trabalho já não é uma das maiores prioridades. Sobre quem nem trabalha e nem estuda, fico a refletir, dá ao tempo ocioso que tipo de tratamento? O tempo é gasto ou ocupado com o quê? É bem possível que haja um uso do tempo de má qualidade. Isto transcende o econômico e galga a arena da diretriz existencial. Porque, uma existência sem propósito, é uma existência inautêntica. Não é assim que leciona o filósofo existencialista alemão Martin Heidegger? Depois de anos praticando uma jornada de trabalho reduzida, agora os alemães entendem que, para aumentar a produtividade e aquecer a economia, é preciso dar um passo atrás em direitos trabalhistas, e retomar uma jornada mais estendida. Outro país que padece processo socioeconômico similar é o Japão. Os títulos emitidos pelo governo japonês estão sofrendo pressão para baixo, estão a desvalorizar. O fato é que, tanto Alemanha quanto Japão, refletem o retardamento da economia norte-americana. Quando o dólar desvaloriza, toda economia mundial é negativamente impactada. Estados Unidos da América, Alemanha e Japão, por muito tempo, foram países, e de certa forma ainda o são, que despontavam na economia em razão de estarem na dianteira do desenvolvimento tecnológico e ciência. E, no atual momento, em quase todos os segmentos tecnológicos a China está na dianteira, esta é a grande diferença. Sem contar que a China é a nova grande fábrica do mundo, e tem um mercado interno enorme. Enquanto a Europa depende em grande medida do gás russo, a China não para de construir várias mega-hidrelétricas, assegurando, com isso, sua autonomia energética. Enquanto que na Alemanha, e em outros países da Europa, igrejas cristãs, católicas e protestantes, transformam-se em museus e bibliotecas, por falta de público, o luteranismo cresce percentualmente em locais como a Ásia e a África. A economia alemã, tecnicamente em crise, ainda está muito a frente de economias periféricas em expansão. A Alemanha não está decrescendo, ela está crescendo mais lentamente. E numa economia capitalista mundial, calcada no princípio da concorrência, importa manter vantagem relativa, para além do crescimento absoluto, este que é o busílis da questão. A curto prazo, destarte, não há motivos para preocupação. Não faltará dinheiro para o chopp e para o strudel. Cá no Brasil, outrossim, não faltará motivos para celebrarmos, dentro de poucos dias, nossa tradicional Schlachtfest. Prosit!
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