Jornal Liberdade
Alguns números da Alemanha atual

Alguns números da Alemanha atual

A economia alemã e a economia mundial

Cléverson Israel Minikovsky
31 de agosto de 2026
51 visualizações

Notícia de 17 de agosto de 2026, publicada no Deutsche Welle, informa que, na Alemanha, um em cada dez jovens, não trabalha e não estuda. Esse número não é tão ruim quanto o da União Europeia, que chega a 12,9%. No Brasil, o grupo homólogo integra 24% do total do conjunto. A displicência em relação à atividade laboral se choca com a falta crônica de mão de obra no mesmo país europeu, que tem recorrido sistematicamente à mão de obra estrangeira. Dois dias mais tarde, em 19 de agosto de 2026, o mesmo canal noticiava que 190 mil negócios encerraram suas atividades, em 2025, na Alemanha. A salva, é que, disso tudo, apenas 13% deveu-se a processos propriamente falenciais. A maioria relaciona-se a proprietários que envelhecem e não têm sucessores para levar o negócio adiante. No dia 20 de agosto de 2026, o canal R 7 anunciava que, durante o verão de 2026, 14.000 pessoas morreram por causas térmicas na Alemanha. Vez por outra, a temperatura tem excedido 41° C. As pessoas mais propensas a óbito por estresse térmico são as maiores de 75 anos, sobretudo se apresentam situações de saúde preexistentes. Aqui fica clara a noção de policrise, o que se espraia da economia à mudança climática. A economia global está desacelerando, e mesmo os países desenvolvidos têm sido impactados por este movimento. Lado outro, é que se acha em curso uma nova dinâmica cultural. Os valores de antanho não são os valores de ora. Via de regra, o alemão continua sendo disciplinado e aplicado ao trabalho, mas esse zelo de se vestir com a indumentária de um obrador já não é mais um consenso absoluto e generalizado. A Europa tem mesclado contratação de mão de obra importada e xenofobia. Quando a guerra da Ucrânia começou, houve acolhimento de retirantes, e agora o governo alemão começa a fazer contas do impacto dos serviços públicos, ofertados a esses ingressantes, no erário, e acham-se em andamento políticas migratórias de repatriação. O fechamento de empresas espelha a pirâmide demográfica invertida, outro fenômeno global. O movimento do pós-guerra, essencialmente expansionista, em que nasciam mais pessoas, o PIB projetava-se em ascendente no gráfico, havia uma expectativa otimista em relação à vida, agora se depara com a retração. As pessoas esperam menos da vida, de si mesmas e do mundo. Constituir patrimônio e ser alguém no mercado de trabalho já não é uma das maiores prioridades. Sobre quem nem trabalha e nem estuda, fico a refletir, dá ao tempo ocioso que tipo de tratamento? O tempo é gasto ou ocupado com o quê? É bem possível que haja um uso do tempo de má qualidade. Isto transcende o econômico e galga a arena da diretriz existencial. Porque, uma existência sem propósito, é uma existência inautêntica. Não é assim que leciona o filósofo existencialista alemão Martin Heidegger? Depois de anos praticando uma jornada de trabalho reduzida, agora os alemães entendem que, para aumentar a produtividade e aquecer a economia, é preciso dar um passo atrás em direitos trabalhistas, e retomar uma jornada mais estendida. Outro país que padece processo socioeconômico similar é o Japão. Os títulos emitidos pelo governo japonês estão sofrendo pressão para baixo, estão a desvalorizar. O fato é que, tanto Alemanha quanto Japão, refletem o retardamento da economia norte-americana. Quando o dólar desvaloriza, toda economia mundial é negativamente impactada. Estados Unidos da América, Alemanha e Japão, por muito tempo, foram países, e de certa forma ainda o são, que despontavam na economia em razão de estarem na dianteira do desenvolvimento tecnológico e ciência. E, no atual momento, em quase todos os segmentos tecnológicos a China está na dianteira, esta é a grande diferença. Sem contar que a China é a nova grande fábrica do mundo, e tem um mercado interno enorme. Enquanto a Europa depende em grande medida do gás russo, a China não para de construir várias mega-hidrelétricas, assegurando, com isso, sua autonomia energética. Enquanto que na Alemanha, e em outros países da Europa, igrejas cristãs, católicas e protestantes, transformam-se em museus e bibliotecas, por falta de público, o luteranismo cresce percentualmente em locais como a Ásia e a África. A economia alemã, tecnicamente em crise, ainda está muito a frente de economias periféricas em expansão. A Alemanha não está decrescendo, ela está crescendo mais lentamente. E numa economia capitalista mundial, calcada no princípio da concorrência, importa manter vantagem relativa, para além do crescimento absoluto, este que é o busílis da questão. A curto prazo, destarte, não há motivos para preocupação. Não faltará dinheiro para o chopp e para o strudel. Cá no Brasil, outrossim, não faltará motivos para celebrarmos, dentro de poucos dias, nossa tradicional Schlachtfest. Prosit!

Compartilhar:

Comentários

Faça login ou cadastre-se para deixar seu comentário.

Carregando comentários...