Jornal Liberdade
O que faz, duma dificuldade, oportunidade, é o amor!

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Reflexões sobre maternidade e neurodivergência

Cléverson Israel Minikovsky
20 de agosto de 2026
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Ontem (11/08/2026) eu lia notícias em meu celular, quando me deparei com o último tópico da barra de rolagem, que noticiava um caso de relação maternofilial, em que o filho apresentava a condição de autista. O menino costumava usar o teclado do notebook para expressar seus desejos e necessidades. A família estava num restaurante e a bateria do aparelho expirou. Para contornar a dificuldade, a mãe escreveu o alfabeto num papel e pediu que o filho dedilhasse, ali, as palavras capazes de transmitir o que queria. Contudo, eis que o menino descartou aquele papel, e pegou um outro, onde colocou as letras segundo a sequência do teclado do computador. E então pôde dizer o que queria. A partir daí, a mãe teve a ideia de tatuar o teclado do computador no próprio braço, para que a estampa na pele servisse de meio de comunicação a qualquer tempo, em todos os lugares. A iniciativa da genitora, fez dela, um exemplo de maternidade e pedagogia. Não digo que um homem não possa ser pedagogo. Lado outro, também não é por acaso que o curso de pedagogia conte com presença massiva de mulheres. A pedagogia mantém grande foco na didática, que é a metodologia pela qual o conhecimento será mais facilmente transmissível. O processo de construção de conhecimento calca-se sobre uma estratégia de comunicação eficaz. Ser condutor ou educador de uma criança, tem como anteposição, a capacidade de edificar pontes gnosiológicas. Antes do processo criativo, antes da iluminação, vem a empatia. Ninguém soluciona uma necessidade alheia sem antes pôr-se no lugar de outro. Nos últimos anos vem crescendo o número de pesquisas sobre o tema autismo. Essas pesquisas dizem respeito à etiologia da condição, os fatores causais, sejam eles genéticos ou ambientais, e aos meios próprios para a evitação desse resultado. No entanto, não se veem, com a mesma intensidade, inovações voltadas ao desenvolvimento do autista no momento presente, na condição real em que ele se encontra. Neurologista, psicólogo e pedagogo são profissionais que, a despeito do prestígio diferenciado de cada uma das suas formações, concorrem em pé de igualdade para o crescimento da personalidade atravessada pelo autismo. Existem, hoje, muitas revistas especializadas, onde se partilham as “dores” das famílias, sem que, em contrapartida, atitudes bem-sucedidas como esta, encontrem no mesmo canal, possibilidade de amplificação. Nenhuma metodologia pode oferecer coisa alguma quando falta afeto. Entretanto, assistimos a arranjos familiares afetuosos e preocupados com seu membro autista, com dificuldade de proporcionar um bom suporte, por falta de boas ideias e experiências positivas disseminadas. A experiência a que me refiro é oriunda de solo canadense. Penso que num contexto como o nosso, latino-americano, a criatividade e a boa vontade são ainda mais pertinentes e necessárias. Enquanto gasta-se tempo, dinheiro e trabalho, perquirindo sobre prejuízos ou vantagens provenientes do uso dos meios digitais, a realidade tem apontado para a complementaridade e fungibilidade do uso de instrumentos digitais a analógicos. Um teclado, afinal, desenhado no braço de uma cuidadora, é um recurso digital ou analógico? Mais ou menos como usar violino e guitarra na execução de uma mesma partitura. Se Feyerabend defendeu a anarquia, o “vale-tudo” na construção do conhecimento científico, porque não fazemos o mesmo na outra ponta, digo, usar na pedagogia todos os instrumentos, todas as metodologias, desde que se prestigie a constante geral, que é a aquisição do conhecimento e o desenvolvimento da personalidade para que se dirige o esforço dos interessados no processo? Várias abordagens teóricas vêm sendo desenvolvidas agora no seio da filosofia. E uma das vertentes mais fortes e prestigiadas é a da filosofia da linguagem. A linguagem é tida como a depositária do sentido e da verdade mais profunda em busca de que se colocam os filósofos. O exemplo que ilustra a confecção deste artigo robora a tese esposada por esse viés. Assim como, no tecnofeudalismo, importa mais a plataforma onde a mercadoria fica virtualmente hospedada, deixando ali o preço por ocupar este lugar, do que a mercadoria em si mesma, em educação especial, prevalece a consumação da comunicação, seja qual for o canal pelo qual se dê o fluxo da mensagem. Quando alguém pergunta a si mesmo, ou a Deus, acerca da função no universo de uma pessoa autista, passa a perceber que, uma técnica desenvolvida para acolher uma pessoa especial, traz consigo a potência de ser estendida a todos, inclusive aos neurotípicos. É o desafio que nos torna melhores, é o desafio que nos faz avançar. A neurodiversidade é coisa não apenas a ser tolerada e respeitada, mas a ser comemorada. Alteridade e outridade caminham juntas!

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