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Fernando Henrique Cardoso: o protréptico de uma biografia

Fernando Henrique Cardoso: o protréptico de uma biografia

Biografia VIP

Cléverson Israel Minikovsky
02 de julho de 2026
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O termo “protréptico” vem de Aristóteles, e pode ser traduzido como “exortação” ou “convite” (à reflexão filosófica). No Salmo 90 versículo 6 lemos: “Tu os leva como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca”. A erva é um exemplo em miniatura do que vem a ser a nossa existência. A vida passa muito rapidamente. A última notícia foi esta: “FHC não lembra que foi presidente do Brasil”. Pegando uma carona nos sermões do Padre Antônio Vieira, FHC foi pó do chão, veio a ser poeira levantada, e agora ela retorna para a horizontalidade primeira de que partiu. É o melhor retrato da vida do ser humano. Getúlio Vargas escreveu que saiu da vida para entrar na história, e FHC saiu da consciência para ter sua memória imortalizada nos livros de história. Os hegelianos e marxistas estão de acordo que a história é um movimento dialético de alternância, entre lucidez e esquecimento. Nenhum dos dois polos consegue suprimir por completo seu reverso. O FHC sociólogo e intelectual elaborou a teoria da dependência econômica (ladeado por Enzo Foletto), e, uma vez tornado chefe do Executivo Federal, solicitou que todos esquecessem o que ele havia escrito. O que antes lhe servia como aura de um intelecto iluminado, passou a ser rechaçado. Pura questão de pragmatismo político. A magnitude estelar converteu-se na tímida chama que crepita no candeeiro. Essas fases não representam apenas a passagem do claro para o escuro e vice-versa, da positividade para a negatividade, e vice-versa, da tese para a antítese. Fica escancarada a fungibilidade das categorias de individual, particular e universal. Trata-se da estranha reciprocidade entre conteúdo e continente. O país já esteve na mão de um homem, e esse homem está entregue aos cuidados dos seus familiares. É circunstancial a posição que o eu relativo ocupa dentro da trama de relações do universo. Aquele que amealhou múltiplos títulos honoríficos de doutor, ofertados pelas melhores universidades do planeta, suficientes o bastante para encartar um volume da espessura de um livro, sequer pode confortar-se no recôndito destas alegres lembranças, eis que as lembranças o abandonaram. FHC tinha, e de certa forma ainda tem, a minha admiração. Estudioso e político, um homem de pensar e de fazer. Só não atendeu ao princípio da práxis, a ideia segundo a qual a teoria e a conduta devem guardar máxima correspondência. Quem sabe ele era, em algum aspecto, weberiano, justamente quando Max Weber dissocia a vocação do político e do cientista. Seja como for, FHC deixou uma das marcas mais indeléveis na história de nosso país, nós que estávamos habituados ao perene processo inflacionário de nossa economia, com o real vimos o nosso dinheiro valer e manter esse valor no decurso do tempo. O real, a propósito, mostra que FHC não foi simplesmente um governante, mas um estadista. Sua trajetória de ministro da economia, seguida por dois mandatos presidenciais, irradiou os reflexos do Plano Real para muitas outras gestões federais, espraiando-se até o momento presente (2026), o que faz prova da perenidade e correção das respectivas iniciativas implementadas. A biografia da personalidade ora em vislumbre exibe bem a relevância da entidade familiar. A meteórica trajetória política passou, e, agora, FHC não está rodeado de repórteres e jornalistas, mas pelos filhos (Ruth, a esposa, falecera em meados de 2008). O mandato, por maior que seja ele, tem começo, meio e fim, ao passo que a família é para sempre. Retornando à produção acadêmica de FHC, ele não pediu que esquecessem suas teorias porque concluiu que elas estavam erradas. Não! É uma tremenda verdade que a burguesia local brasileira se associa a interesses internacionais, para enriquecer-se, priorizando os próprios objetivos financeiros, em detrimento dos interesses do país. A questão é que não é nem um pouco simples alterar a lógica dessa relação, estruturada como ela está. E o fato de o postulante da tese, encontrar-se em situação de severo declínio cognitivo, não desautora seu mérito. Pelo contrário, é justamente porque todos, em algum momento, perderemos nossa capacidade reflexiva e pensante, que devemos nos aplicar à escrita. Nós passamos, mas o que escrevemos remanesce. Não há nada de errado em ser ambicioso. Ambição é uma qualidade, e não um defeito. Todavia, temos de carregar conosco a certeza de que tudo é provisório. Quando estivermos em maus momentos, saibamos que isto passará. Lado outro, igualmente verdadeiro é que todo apogeu e toda glória secular haverá de passar. A maioria de nós, nasce, vive e morre, em relativo anonimato. Os que se destacam são aqueles que reconhecem que o ser humano é um ser social e exploram essa sociabilidade em nome de comuns interesses. Foi o que FHC fez. Era o máximo que poderia ter feito. Agora ficará eternamente sujeito ao julgamento da história. Ou, como sentencia o provérbio popular, “o tempo é senhor da razão!”. Simples assim!

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