Jornal Liberdade
Inteligência Humana e Inteligência Artificial

Inteligência Humana e Inteligência Artificial

Avanço da tecnologia e descaracterização do ser humano

Cléverson Israel Minikovsky
13 de agosto de 2026
78 visualizações

Notícia publicada em 05 de agosto de 2026, no site de Revista Veja, dá a conhecer o resultado de uma pesquisa científica sobre inteligência artificial cotejada com inteligência humana, divulgada originalmente na revista científica Judgment and Decision Making, conduzida por equipe da Universidade Villanova (EUA). O estudo, cuja extensão da amostragem compreendeu milhares de voluntários, mostrou que, omitindo-se a autoria de um texto, ocultando se ele deriva de máquina ou de cérebro humano, as pessoas, em sua maioria, elegem os textos de IA como superiores em qualidade aos de procedência antropogênica. No que tange à identificação de padrões, quando os voluntários foram desafiados a classificar um texto como humano ou generativo de IA, erraram grosseiramente, embora não totalmente. O texto de IA não diverge tanto do humano pela impessoalidade, senão muito mais pelo perfil mais “claro e direto”. O texto de IA tem uma progressão mais suave, é mais leve e fluído. A preferência pelos textos de IA faz sobressair a má vontade mental, marcada pela ausência de resiliência, incapaz de superar as agruras de um texto mais denso, apenas um milímetro mais profundo para além do trivial. O que me incomoda nisso tudo, é que a linguagem é o que nos distingue das outras espécies. Ela é a nossa marca pessoal. A literatura é o que faz com que sejamos o que somos, em uma palavra, humanos. Agora a nossa marca mais importante deixa de ser uma exclusividade. Somos produtores de cultura. Nesse instante, criamos o nosso próprio “cover”. Se uma obra literária vem a ser a possibilidade de jungir experiência de vida a originalidade criativa, pelo treino reiterado, a IA torna-se capaz de replicar criatividade mediana, e, outrossim, um texto carregado por aquilo que chamaríamos de “experiência de vida”. Com a Revolução Industrial, terceirizamos o trabalho mecânico para as máquinas. Com o rádio, com a televisão, com a imprensa, as obras culturais e os conteúdos de escrita, som, imagem, ficaram passíveis de reprodução em larguíssima escala. É a crítica da Escola de Frankfurt. Mas a IA excede a possibilidade de replicar exponencialmente a criação humana, ela abandona a função de reprodutora para vir a ser a própria geratriz. À medida que a sofisticação da técnica avança, somos cada vez mais deixados de lado. Perdemos o protagonismo. Descartes concebe o conhecimento como a capacidade de categorizar coisas, fatos e ideias a partir de uma percepção clara e distinta. Entrementes, eis que tem restado comprometida nossa clareza e distinção. Diluiu-se a linha separatriz entre o que é humano e o que não no é. Nesse sentido, a produção das máquinas, pelo viés cartesiano, é um desconhecimento. Desconhecer o que nos pertence, ou o que nos diz respeito, é uma grande ignorância. É como assinar um documento e, a posteriori, ser indagado sobre a autenticidade da firma, e não poder responder com segurança. O texto literário perde uma das suas funções mais relevantes: estabelecer conexão entre o leitor e o autor do texto. O texto deixa de ser uma mensagem do íntimo de um ser humano para o íntimo de outro ser humano. Perde-se a sensação de universo compartilhado. O leitor já não se reconhece mais no texto. O exercício de colocar-se no lugar do autor da obra é desincentivado. A indústria alimentícia calcou-se em estratégias de beneficiamento artificial tão eficazes que, hoje, imaginamos estar comendo cerejas, quando, em verdade, mastigamos e ingerimos chuchu tingido, saborizado, aromatizado com princípios ativos que imitam a cereja. Detalhe: não há uma única propriedade nutritiva da cereja presente na imitação. Enganamos o cérebro e a língua, enquanto o corpo recebe açúcar e componentes químicos. Não bastasse enganarmos o corpo, passamos a enganar nossa alma. Estamos sujeitos a adquirir um livro, que entrou em circulação, pelo apertar de um botão. Nem o camarada que deu o prompt, talvez, tenha lido o material que se originou da emanação do comando. Se a literatura tem como missão a produção de sentido, qual o sentido, a razão de ser desta obra? É digno de nota que o país que lidera a tecnologia de IA, ao lado da China, sua grande concorrente, conduza uma pesquisa científica voltada à compreensão dos impactos da IA na sociedade. Fica patente que as tecnologias são descobertas ou inventadas, e colocadas nos espaços sociais, sem que se tenha a noção do que surtirá dessa inserção. Essa negligência acusa uma sutil irresponsabilidade. Entre o que passa e o que permanece, resta claro que, com todas as tecnologias de ponta, proficiência em leitura, capacidade de interpretação e espírito crítico continuam sendo importantes. Independente da origem das coisas, sói que distingamos, segundo o ditado, “alhos de bugalhos”!

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