Jornal Liberdade
Templo Expiatório da Sagrada Família

Templo Expiatório da Sagrada Família

Quando uma atividade vai além dela mesma. Reflexão sobre projetos arquitetônicos e sua conexão com a espiritualidade.

Cléverson Israel Minikovsky
16 de abril de 2026
1.2k visualizações

Em Barcelona, na região da Catalunha, na Espanha, situa-se o Templo Expiatório da Sagrada Família. Ele foi projetado pelo renomado arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926). O edifício santo está em edificação desde 1882, e ficou pronto neste ano, 2026, de formas que agora estão sendo desmontados os andaimes. Atualmente, ela é a igreja católica mais alta do mundo, com 172,5 metros de altura. Quando a construção referida começou a ser erigida, Karl Marx ainda era vivo, eis que faleceu aos 14 de março de 1883. Prosperou a Revolução Russa, em 1917, foi à falência a União Soviética, em 1991, e a Sagrada Família continuava em construção. Passaram-se seis ou sete gerações, e a Sagrada Família continuava em construção. Como foi possível o concurso de tantos esforços, em épocas e contextos diferentes, de maneira a viabilizar a realização de tão ambicioso projeto? A explicação é esta: a obra transcendeu o caráter de mero trabalho, e foi guindada à condição de “ideia”, “ideal”, “ideologia”. Não é possível matar um conceito ou uma mentalidade. Por certo que a obra reforça o poder institucional da Igreja Católica. Mas o motor que faz tudo funcionar é o Cristo, o Filho do Grande Arquiteto do Universo, justamente ele que se mostrava displicente para com as preocupações de cunho material. A edificação de grandes templos é mais uma metodologia de evangelização, o que se replica também aqui, no Brasil, aliado ao turismo religioso. É parte da teologia da dominação. O caráter faraônico dos templos convence pela grandiosidade. É a estética do vencedor. Não vejo problema em se erguer grandes igrejas, ou catedrais, ou basílicas. Afinal, o espaço existe e é dedicado primeiramente a Deus. Pondero, somente, que devemos nos precaver daquilo que Olavo de Carvalho chamou de “cristianismo ornamental”. O verdadeiro cristianismo é o da interioridade. O melhor templo para Deus tem de ser o nosso corpo. Alguns espaços são usados para transmitir saberes, como uma escola, uma universidade. Entretanto, alguns espaços são uma lição em si mesmos. No caso da Sagrada Família, fica explícito o valor da perseverança, da resiliência, da determinação e do propósito. A cooperação e a comunhão de intenções também se sobressaem. Voltando a Marx, em 1844, em coautoria com Friedrich Engels, ele escreveu A Sagrada Família, uma obra que critica e ironiza a direita hegeliana, desconectada da condição social das classes menos favorecidas na Prússia. Cabe-me, outrossim, inserir mais uma digressão neste ponto gráfico: a alusão ao presépio, um enfeite estático e inerte, emprestou seu nome à maior igreja católica que, para tornar-se realidade, demandou um movimento operativo que se protraiu por mais de um século. A tese da inércia, destarte, é vencida pela ação que ingressou como mediação imprescindível. Alguém poderia dizer que os recursos empregados na edificação da Sagrada Família poderiam ser usados para alimentar os pobres, mas o Cristo foi categórico: “Aos pobres, sempre os tereis, a Mim, todavia, nem sempre tereis”. Sem desdizer a sapiência do Mestre, abstenho-me de tecer críticas à maravilha da engenharia em apreço, mas resgato o valor de nada negligenciarmos, o que inclui sermos solícitos para com os pobres. Cristo aconselhou não nos preocuparmos com o que comer e vestir, mas não hesitou reservar um espaço propício para a quinta-feira de endoenças. Isto tudo mostra que muitas são as dimensões da realidade, e cada uma tem o seu devido valor. Ao praticar uma iniciativa, deve-se zelar para não sonegar outra. O plano de Deus sempre foi fazer morada. Ele residiu no Éden, na arca de Noé, na Arca da Aliança, no arraial onde estava a arca, na Terra Prometida, no Templo, na pessoa de Cristo. O próprio Cristo, além de Ele mesmo ser morada, afirmou sobre o Templo, resgatando uma passagem do Antigo Testamento: “O zelo da tua casa me consome”. Tanto o primeiro quanto o segundo Templo muito agradaram a Deus. Na Bíblia também consta: “A glória da segunda casa será maior do que a primeira”. Contudo, é a própria Bíblia, em seus livros proféticos, que adverte: “Habitarei não um templo de pedra, mas de carne, habitarei o coração das pessoas”. Que a Sagrada Família seja a exteriorização simétrica do sentimento que nutrimos do lado de dentro. Hermes Trimegisto lecionou: “Como é em cima, é embaixo, como é fora, é dentro”. Não se acende uma lâmpada para colocar debaixo de um alqueire. Deus é muito maior do que a maior igreja, mas, até o presente momento, a Sagrada Família vem a ser aquilo de maior e melhor que somos capazes de fazer. Que a conclusão dessa obra inspire muitas gerações a andar nos caminhos de Deus. O projeto de Gaudí reluziu desde a sua concepção, e, agora, plenamente executado, haverá de ser um farol para o mundo inteiro, para toda a cristandade!

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