
O envelhecimento é mensurável?
Mexer no corpo do cálculo altera o resultado
Uma inusitada história: há uns dez anos atrás, eu estava em uma agência bancária de minha cidade natal, quando uma das funcionárias, gentilmente, sinalizou a uma mulher, que acabara de sacar a senha do rolo de papel, que aos idosos havia a opção preferencial, de uma outra cor, cuja fila movia-se mais rapidamente. Ao que a destinatária da afável mensagem contestou, “eu só tenho 58 (anos)”. Dois anos menos do que a idade mínima, 60 anos, para ser incluída na categoria dos idosos. A embaraçosa situação abre os nossos olhos para isto: há como medir o envelhecimento? A pergunta calha muito bem, até porque, como dissemos, a aparência, recorrentemente, engana. A ciência parece ter estabelecido critérios mais ou menos seguros para calcular ou aferir a idade orgânica de um indivíduo. São, em regra, cinco os parâmetros: 1) Cognição: está relacionada à capacidade de pensar, aprender, concentrar-se, e recordar do passado; 2) Locomoção: vincula-se à possibilidade de caminhar e movimentar o corpo; 3) Vitalidade: diz respeito ao nível de energia, à disposição para realização de atividades e resistência física; 4) Sensorial: envolve todos os sentidos, com maior ênfase para a visão e audição; 5) Psicológica: afere o equilíbrio emocional e a saúde mental. Adotando cada um destes cinco referenciais, e montando uma escala de zero a dez para cada um, podemos estruturar um gráfico para visualização do escore. A geriatria e a gerontologia mostram que, por trás de todas as formas de conhecimento, permanece uma concordância de fundo, esta em busca da qual se ordenam os filósofos de todos os vieses. Neste caso, os pressupostos do pragmatismo saltam aos olhos: é pela capacidade de executar ações, dirigidas para fins de interesse, que alguém é tido como jovem ou velho. Não é um conceito que determina a vivência, mas é a possibilidade de protagonizar diversos papeis que embasam a compreensão de caracterizar o estado geral de um ser humano. É uma metodologia objetiva e universal, em que pese as peculiaridades étnicas e culturais dos diversos grupos humanos. Mesmo que o amável leitor não tenha formação na área de saúde, os fatores de observação aqui declinados podem servir-lhe de baliza para uma autoanálise. Além do mais, a mirada destes cinco referentes pode subsidiar um projeto de construção de um modo de vida saudável, na medida em que, a partir deles, sejam pensadas estratégias que colaborem para a ascensão dos escores. Quando os objetivos ficam claros, passa-se a ver, com mais nitidez, as intervenções que redundarão na sua consecução. É, pois, um verdadeiro mapa a induzir a compreensão do terreno em que a nossa saúde transita. O modo como caminhamos pelo mundo, de alguma maneira, determinará a extensão da jornada. Trata-se não só de ir longe, mas, outrossim, de ir bem. Alimentar-se adequadamente e fazer ginástica pode depender de uma decisão ou atitude da pessoa. Lado outro, nem sempre está ao nosso alcance, por exemplo, livrar-se do estresse e de situações estressantes. Em alguns dias de nossa vida, percebemos que o sofrimento, o problema e a dificuldade nos perseguem, por mais que queiramos ficar longe deles. Em 2026, os europeus fizeram a experiência do estresse térmico, com um verão atípico, marcado por altas temperaturas na série histórica. Nem sempre a opção “ambiente climatizado” pode estar ao nosso alcance, ao longo das vinte e quatro horas do dia. Este é apenas um singelo exemplo. Mil coisas podem nos afetar. Trânsito, perda de compromissos, problemas técnicos – nossa vida está completamente envolta por tecnologia, e por aí vai. Se em países tradicionalmente “pacíficos” padecemos em demasia, fico a refletir sobre quem mora em zonas de conflito armado. A guerra, de fato, é uma distopia, o pior do pior. A história tem nos ensinado que vida organizada e sociedades organizadas alongam e otimizam os dias de nossa existência. Invistamos nisso!
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