Jornal Liberdade
Infâncias Perdidas

Infâncias Perdidas

Crianças e adolescentes: a maior de todas as responsabilidades de que seremos cobrados no dia do acerto de contas!

Cléverson Israel Minikovsky
30 de junho de 2026
43 visualizações

Aconteceu em Porto Belo (SC): notícia de 13 de junho do corrente ano (2026), dá a conhecer que uma criança teria pretendido matar seu coleguinha, no ambiente escolar, para ser presa e, com isso, poupada de ter que retornar para a casa da sua família. Por que ela não queria retornar para casa? O infante não suportava mais as discussões frequentes entre os pais adotivos. Note-se, que a criança já não estava mais no seio da família biológica, o que sugere que esta era disfuncional. Destituídos do poder familiar, os pais biológicos viram seu ente querido ingressar em outro arranjo familiar. Talvez isso tenha sido um respiro ao ser humano em formação, que foi negligenciado, e teve seus direitos violados. Infelizmente, o problema apenas trocou de lugar, ou o segundo lugar era tão problemático quanto o primeiro. Ambas as casas mostraram-se inadequadas, para proporcionar um meio sadio, dentro do qual uma criança possa desenvolver-se em todos os aspectos. A matéria original não fazia alusão ao motivo em razão do qual as discussões iniciavam-se e perduravam. Por conseguinte, cabem-nos apenas conjecturas. Pela experiência que tenho, não raro, as discussões decorrem da infidelidade conjugal. O fulcro do punctum dolens aqui está: em última instância, é a criança que paga o preço amargo do sexo espúrio. Um dos paradoxos da existência é este: os sedizentes adultos querem divertir-se mediante a prática sexual, sem considerar a possibilidade real de advir desses momentos uma responsabilidade tremenda, refiro-me à paternidade e à maternidade. É assim que a criança indesejada acaba sendo integrada à lista de adoção da comarca, e é assim que essa criança vive instabilidades várias, nas famílias natural e adotiva. De que adianta seguirmos os passos de Friedrich Fröbel, e criarmos os “jardins de infância”, quando no ambiente familiar apegam-se à criança as pragas que esmaecem essas vidas delicadas como flor? Tornamo-nos adultos, digo isto em relação àqueles que efetivamente adentram à adultícia, a partir do momento em que temos o primeiro filho. Sim, porque, afinal de contas, alguém precisa ser adulto para essa criança. Entretanto, muitos corpos crescidos ficam defasados em mentalidade, porque nem a paternidade e a maternidade os arrancam da fantasia e da falta de tato. Quando dois adultos já não têm mais respeito nenhum, um pelo outro, guardem a discussão para o momento em que estiverem sós. Poupem o infante desse fiasco desagradável, gerador de instabilidade emocional e ambiental. São esses mesmos destrambelhados que declaram estar desapontados com os filhos, quando eles recorrem a todo tipo de conselho, antes de tomar uma decisão importante em suas vidas, menos o conselho paterno e materno. Não que os pais não lhes sirvam de referência. Eles são referência: o modelo perfeito do que o filho ou a filha não pretende ser. Pobre criança, que não pertence a lugar algum. A criança que não sintoniza com a casa dos pais, sente-se deslocada em todos os demais ambientes que o mundo inteiro possa comportar. A escola não lhe serve de casa. Porque a escola não existe para ser uma casa. Pela escola passamos todos nós, mas ela é isto apenas, um lugar pelo qual simplesmente se passa. Para essa criança, nenhum lugar é consolador ou seguro. Ela sempre se sente avulsa e jogada. Martin Heidegger afirma que todos nós fazemos a experiência do Dasein, o ser-aí, o ser que se encontra derrelito e lançado no mundo. Sim, estamos sós, estamos jogados. O que dá sentido à nossa vida é o engajamento em atividades sociais, como o estudo e o trabalho, e, principalmente, nos laços afetivos familiares e comunitários. Na escola ocorre aprendizagem. Em casa deve ocorrer educação. A educação é mais ampla. Ela transcende o meramente cognitivo ou informacional. Ela abarca comportamento, pensamento, emoção e sentimento. O construto de uma nova personalidade inclui a vivência de valores como respeito mútuo, diálogo, cooperação, empatia, paciência, resiliência, renúncia, etc. Como querer que os filhos saibam assimilar a frustração, se os supostos adultos, não conseguem interagir, adequadamente, com situações de frustração? Esse é o curso da civilização humana: passam-se gerações e gerações, e não aprendemos a executar o básico. No fundo, o propósito e a ironia da vida é isto: começar tudo de novo, sempre, como se tivesse sido a primeira vez. Performar bem, e melhor do que nossos ascendentes, não é mérito, é obrigação. Em tempo: não se atrevam invocar o argumento de que, em sua época, seus pais eram mais exigentes, e não estavam nem aí para as expectativas mínimas hoje consensuais. Nossos filhos não são responsáveis por aquilo que nossos pais fizeram conosco. Nós somos responsáveis – ou deveríamos ser – por o que acontece a nossos filhos. Acordemos para a vida! Mais família! Menos Judiciário!

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