
Europa hoje
Geopolítica à luz dos acontecimentos em solo europeu
Dias atrás, um cardeal afirmou que “os poderosos do mundo” querem destruir a Europa e, para tanto, seu alvo primeiro seria a Igreja Católica. De arrancada, a pergunta que faço é esta: querem destruir a Europa fragilizando o catolicismo, ou querem destruir o catolicismo desgastando a Europa, seu chão doméstico por costume? Eu penso que os dois objetivos e as duas metodologias refletem a realidade. Por muito tempo, e ainda hoje, a Europa tem uma influência sobre o mundo, desproporcional em relação à sua extensão territorial e população. A Inglaterra continua tendo uma influência desproporcional sobre o sistema financeiro global, tomando-se a sua economia como referência. Nesse sentido, a onda islâmica que ingressa na Europa não seria de refugiados (somente), mas de pessoas trazidas, adrede, com a intenção de enfraquecer o cristianismo. A Igreja Católica considera a internet o novo continente a ser evangelizado. Bravo! Muito oportuna essa fala! Contudo, como diz o ditado, “quando fizeres novas amizades, não te esqueças das antigas”. Os Estados Unidos da América são predominantemente protestantes, a China é oficialmente ateia, e a Rússia é cristã ortodoxa. O catolicismo, que sempre esteve tão alinhado com os poderosos, agora parece esquivar-se da rota do poder. Antes, tivemos Francisco, da Argentina, e agora temos Leão XIV, dos Estados Unidos da América. Essas escolhas tiveram o afã de estancar a massa de conversões ao evangelicalismo, sobretudo na América Latina, mas também desfocar da Europa. É consabido que o clero europeu tem uma ingerência e um poder sobre o Vaticano maior do que aquele verificado em outras partes do mundo. Assim sendo, para que a Europa continue relevante, ela precisa abrir-se ao resto do mundo. O que fez da Europa o continente mais influente do mundo foi sua pujança econômica, reflexo do seu nível da técnica, superior em relação aos demais. Hodiernamente, a produção de conhecimento está difusa. Muitos países fora da Europa concorrem com o Velho Mundo, e entre si, pela dianteira da inovação. Uma instituição que gerencia bancos, canais de televisão e rádio, editoras e gráficas, universidades e escolas, hospitais e outras instituições filantrópicas, não pode ser neutra em economia e política. Então, quando esses interesses se chocam com outros, que não os eclesiásticos, ninguém considera o fator espiritual relevante, até porque ele é tido como nulo ou inexistente, simplesmente pretextual. Essa disputa por poder, onde a Europa ingressa como elemento a ser aniquilado, tem a favor de si o declínio demográfico. Não existe Europa sem europeus. Para além de toda a conjuntura geopolítica, para além de todo o estrategismo bélico que enxerga o mapa mundi como um espaço a ser disputado pela força bruta, o que se verifica é uma guinada cultural. O prestígio da religião esmaeceu. E a tendência não é só europeia, mas global. No Brasil, segundo recente pesquisa que li, mais de 41% dos adolescentes disseram não acreditar em religião alguma. Seria uma fase? Faço essa pergunta, porque a adolescência é, por natureza, uma fase problemática da vida. A pressão sobre o continente europeu só não é maior, porque eles continuam sendo, a despeito do ranço metropolitano, um mercado consumidor relevante, para quem se pode vender ampla gama de variedades. A invenção da União Europeia, que congrega boa parte dos países do continente para formar um bloco econômico, deu um respiro aos seus integrantes, mas exibiu um paradoxo, dês que a própria coalizão, como um todo, permanece aquém do PIB das grandes economias extraeuropeias. Max Weber teve o mérito de demonstrar que uma mentalidade religiosa tem o poder de impactar o trabalho, a economia e a política. O púlpito continua sendo um ponto de partida de mensagem que encontra seu destino final nas mentes e corações humanos. Reconhecido isto, fica fácil entender porque alguns pretendem calar essas vozes. Há muito tempo perdeu-se o consenso sobre o que vem a ser um europeu paradigmático. O próprio paradigma esfumaçou-se. O pano de fundo, entrementes, por razões históricas, continua sendo a religião cristã, com ênfase no catolicismo. Sinceramente, não pretendo ver a Europa naufragar. Nela estão as minhas raízes. Não quero apagar sua estrela. Pelo contrário, quero fazer brilhar a minha. Por séculos, a Europa exportou modelos culturais. Essa, em meu ver, foi e continua sendo sua grande contribuição. A Europa não pode e não deve perder esse relevante papel. Cabe a nós, adentrar à adultícia, e ser artífice dessa construção, dentro de um protagonismo compartilhado. A Europa precisa ser conhecida e amada. Com toda crítica marxista ao capitalismo central, ao colonialismo, ao escravagismo, às relações assimétricas, entre quem um dia foi a soberana do mundo, e os que se viram como provedores de matérias-primas e trabalho suado barato ou não pago.
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