
Peru: como manda o figurino!
A retomada do mínimo
Notícia publicada no G1, no dia 14 de outubro de 2026, assim foi resumida pelos administradores da página: “Governo do Peru proíbe maquiagem e impõe cabelo curto nas escolas públicas: a proposta é criticada por organizações feministas e de direitos humanos, que questionam a eficácia das restrições para prevenir a violência nas escolas”. Em El País, a novidade foi assim anunciada: “La disciplina escolar de Fujimori en Perú: ‘Los hombrecitos deben venir con el pelo corto. Está prohibido pintarse el pelo o maquillarse’”. O direito constitucional de um país que se preze, não pode recepcionar uma medida nos termos aqui reduzidos. O estético pertence ao campo dos direitos personalíssimos. Somente ditaduras islâmicas, ou uma tal como a da Coreia do Norte, adentra a estes detalhes da vida dos seus cidadãos, se é que faz sentido usar este vocábulo, desde que não se vislumbra cidadão em terra sem cidadania. Pela iniciativa legal, as meninas não podem se maquilar, usar esmalte nas unhas, tingir o cabelo, e a saia e outras peças de roupa devem ter comprimento adequado. Os meninos devem usar cabelos curtos. O acesso ao celular, no espaço escolar, é proibido. Infrações graves serão punidas com expulsão. Aqui está a questão: boa parte destes alunos, os que fazem volume (apenas) nas salas de aula, estão torcendo para serem expulsos. Educadores de esquerda, e outros cientistas sociais, dificilmente concordarão com essa arbitrariedade. Eu, entretanto, serei voto divergente. O que vemos nos países da América Latina, e inclusive no Brasil, é isto: uma falta de sentido, uma falta de propósito. Inexistem ideais pelos quais lutar. É dado mau desfecho ao exercício da liberdade. O leque da discricionariedade é empregado em prejuízo de si próprio. O que se vê é uma falta absoluta de norte. A normativa autoritária devolve aos adolescentes a percepção basilar segundo a qual vivemos em sociedade, e tudo o que fazemos deve guardar saudável relação com o coletivo. Aparência desleixada ou esdrúxula transmite desorganização e anarquia. A discrição não é um valor desimportante. Nem o governo e nem a sociedade querem esses tais influenciadores, com milhões de seguidores, que morrem ou se matam antes dos trinta. Num dia destes, atrás, vi uma influenciadora com 31,8 milhões seguidores declarar que iria deixar as redes sociais, por falta de propósito. Quantidade não é qualidade! E onde falta qualidade não há sentido. Um dia sonhei entrar numa sala de aula e levar um discurso de libertação, de crítica, de tomada de consciência. Mas as gerações de agora precisam de quem lhes atarraxe e não de quem lhes afrouxe. O Peru se deu conta de que precisamos reaprender a ser gente. São essas coisas insignificantes que vão moldando nosso caráter. Se alguém quer se destacar, destaque-se por notas excelentes, e não pelo colorido do cabelo. Não somos gado para ficarmos marcando nosso próprio couro, até porque, ele é bem mais sensível do que a derme de outros mamíferos. Alarguemos horizontes, não a orelha. Asseio se arranja com ordem, aparência desmazelada combina com criminalidade. A cultura do crime está entrando com força total para dentro do ambiente escolar. A educação haverá de ser parceira nesse processo de transformação do pivete em cidadão do bem. Nós, pedagogos, psicólogos, administradores, etc., temos o dever de vencer a batalha travada com o crime em se tratando de modelar essa massinha chamada “ser humano em desenvolvimento”. O Peru fez a coisa certa, deu o primeiro passo. Com todas as críticas fazíveis ao perfil da intervenção. No passado, o excesso de controle impediu o desabrochar de grandes talentos, agora, os mais novos se acham perdidos e errantes, pela completa ausência de disciplina. Pessoalmente, não sirvo para isto, mas quem se realiza exercendo pressão sobre outros seres humanos, garanto: neste momento, precisamos de você, por mais que me doa admitir isto. Luz em excesso ofusca a visão, retornemos à penumbra!







