Jornal Liberdade
Cultura como questão de segurança

Cultura como questão de segurança

A retomada da importância da leitura para o desenvolvimento nacional

Cléverson Israel Minikovsky
01 de outubro de 2026
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Notícia de 17 de setembro de 2026, publicada no sítio de O Globo, informa que “Para reduzir a dependência de celulares, Cingapura paga população por leitura de livros”, trazendo como legenda explicativa “País busca frear o ‘doomscrolling’, o consumo compulsivo de conteúdo nas redes sociais e na internet”. A regra da proposta faz as coisas funcionarem assim: quinze minutos por dia gera direito a pontuação. Sendo que cinquenta dias de leitura gera crédito de um dólar de Cingapura. Honestamente, não diria que o incentivo é irrisório, mas, com certeza, módico. De toda forma, se todo cingapurano for compulsivo por livros como eu (e não por telas), o governo federal iria à bancarrota, tamanha a dívida. Diga-se de passagem, aos que ainda não sabem, Cingapura é um país vanguardista em educação. No passado, o conhecimento ficava armazenado em mosteiros, cujas paredes exibiam uma espessura de quase um metro de pedra ou tijolo maciço. No passado, nem os próprios padres podiam ler a Bíblia. Afinal, eles podiam compreender o texto de um modo equivocado. No contexto medieval, o acesso à informação e a difusão do conhecimento eram vistos como perigosos. O conhecimento ilumina. E os iluminados são perigosos. A questão do século vinte e um, asiático, é bem outra. O risco vem da alienação diante das telas. E o remédio? Agarrar-se aos livros e emancipar-se da fantasia para se apossar do espírito crítico. As prioridades culturais e de controle social são outras. Os estadistas do passado e do presente sempre pretenderam governar a sociedade tendo como sopé a ignorância do poviléu. Os estadistas do futuro viram-se obrigados a dar uma guinada. O mundo competitivo de agora exige que os cidadãos sejam engajados, no desenvolvimento da técnica, da ciência, da economia, etc. Não há, mais, behaviorista que sonhe com uma sociedade de autômatos. Essa megalomania onírica já não tem serventia aos que regem o sistema global. O que continua existindo é a sociedade do controle. Não basta, todavia, vigilância ostensiva e patrulhamento policialesco. Mais que ser fiscalizado, o cidadão deve estar incursionado em uma espécie de missão social, seja ela qual for. Não basta apenas não estar fazendo algo errado, não estar delinquindo. Todo indivíduo, em algum ponto da teia social, deve estar somando ao sistema. Aliás, se o sujeito tem como característica ser inerte, em certa acepção, é até bom que infrinja a lei e seja recluso. Porque as unidades prisionais também cumprem uma função estrutural. Esse elemento neutro passa a pesar para o ente coletivo como uma demanda resolúvel pela ingerência estatal, agora como negatividade. O nem-nem, aquele que não trabalha e não estuda, é o que melhor representa a figura do anarquista. Na unidade prisional, há muito tempo, já vem sendo aplicada remissão de pena aos presos leitores. Ao que parece, a experiência mostrou-se tão profícua, que os governos passaram a estender o abono até para quem se acha livre e solto. Com toda tecnologia da informação e comunicação, o velho e bom livro de papel emerge como solução para problemas contemporâneos, ele que corporifica a maior e uma das mais antigas invenções (tecnológicas) humanas, a escrita. Um povo que lê (e escreve) é um povo sábio. Nem mesmo as conquistas concretas se viabilizam sem as conquistas do espírito. Logo mais estaremos diante da urna. Ora, política não é propaganda, política é conhecimento. Como está o seu conhecimento nesta área? Seja lá qual for seu nível de proficiência nesse tema, pode estar certo de que qualquer eventual deficiência será suprida por um bom livro. Aquele tomo amarelado e com cheiro de mofo, da verve de um bom filósofo, é fosfato abundante para o intelecto. Sirvamo-nos dos clássicos. Eles são luz!

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