Jornal Liberdade
Linguagem musical

Linguagem musical

Quando a tecnologia é um fomento à criatividade humana

Cléverson Israel Minikovsky
08 de setembro de 2026
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Theodor Adorno criticou a massificação da cultura promovida pelo capitalismo industrial. Ele atribui aos meios de replicação o que denominou de “regressão na audição”. A invenção do rádio, seguida da comercialização do disco de vinil (1948) foram eventos tecnológicos de alto impacto cultural. O modo como se passou a produzir letra e melodia foi impactado pela ampliação, e consequente mudança, do público ouvinte. Deixou de se produzir música para intelectuais, mais afeitos à música erudita, e passou-se à produção da música popular, conceitual e sonoramente mais pobre. Recentemente, a indústria da música sofreu o viés do CD, do DVD, da internet, e agora, da IA. A IA não muda apenas o lugar em que a música é arquivada, e nem mesmo somente a forma de acesso. Num dia destes, recebi em meu celular a propaganda de uma empresa que vendia um serviço consistente em traduzir em partitura um arranjo musical da verve de qualquer cantante disposto a celebrar a referida parceria. Esta ocorrência, de algum modo, relativiza tudo o que os frankfurtianos disseram. A partitura que ficou perdida nos tempos de antanho, agora é recuperada. A música popular passará a falar a linguagem da música erudita. Ninguém precisará estudar teoria musical anos e anos para se tornar compositor. Um programa de computador fará a transposição sonoridade-notação musical. A representação por símbolos gráficos a espelhar o que a caixa de som emite no recôndito do espaço domiciliar do ouvinte ascenderá ao status de realidade tangível. Isto significa que, mesmo que todas as fitas de programação em áudio, todos os discos de vinil, todos os CDs, todos os DVDs, e todos os Data Centers do planeta venham a dar um grande “bug”, em havendo impressa uma partitura saída da impressão do software a que nos reportamos, a canção poderá ser refeita, enfim, não será perdida. É tão revolucionário quanto coordenar a criação de um dicionário e de uma gramática de um idioma falado por um povo ágrafo. Creio, aliás, que a recíproca inversa deva ser verdadeira: um computador programado para tal, deverá ser capaz de executar uma partitura, seja ela qual for. Aquela métrica oculta e perfeita tão buscada por Pitágoras, neste evento tecnológico consolidou-se como uma das grandes aquisições do gênero humano. A tecnologia não apenas não é ruim, ela é, na verdade, ótima. Depende do uso que fazemos dela. Tecnologia é luz!

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