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Homeschooling: coisa exótica e bizarra

Homeschooling: coisa exótica e bizarra

Voltando ao importante debate sobre educação: a educação doméstica, é possível? É conveniente?

Cléverson Israel Minikovsky
12 de julho de 2026
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Aos que defendem a substituição da formação tradicional, por outra, a ser executada dentro da casa da entidade familiar, pergunto o seguinte: pode a família dar conta de ofertar algo idêntico, ou superior, ao que se oferece nas unidades públicas de educação, de modo que, a presença e a frequência aos estabelecimentos oficiais de ensino, fiquem adstritos a apenas mais uma possibilidade de crescimento cognitivo, dentre outras concorrentes? Qual o pai ou o tutor que apresenta proficiência em todas as matérias do currículo? Se cada disciplina requerer um professor, qual família consegue arcar com este custo? Quem tem tempo para trabalhar, vencer os compromissos domésticos, e iterar carga horária equivalente àquela praticada nos estabelecimentos escolares de tradição? Do ponto de vista prático, o homeschooling cria uma infinidade de dificuldades, as quais só a escola tem estrutura e know-how para superar. Abandonar a escola, para entregar sua demanda a outro ator social, é desperdiçar experiência e infraestrutura. Por conseguinte, qual a razão de ser do manejamento desse discurso político-ideológico? Os parlamentares, e outros políticos que apregoam essa ideia, pretendem quebrar o monopólio da educação, abrindo caminho para empresas privadas de ensino. Essas empresas ganhariam muito dinheiro, uberizando os professores contratados, vendendo ilusões para seus clientes. Mas estender a área do mercado e abocanhar o acréscimo gerado, apesar de ser uma meta importante para seus defensores e artífices, não esgota o projeto político. Existe a intenção de enfraquecer a escola enquanto instituição, deslegitimá-la. É uma evidente e indiscutível disputa ideológica. O capital sempre pretende promover o desmonte do estatal e do público, para que os ricos não precisem ter seus poderes contrastados por outra instância, sobretudo se ela toma corpo em nome de outra classe social, que não a burguesia. Se, para além da guerra de trincheira, em que é minerada a intenção política, de voto a voto, houver, realmente, alguém que exiba estro para conceber e executar uma formação de excelência, pondero que essa joia muito bem poderia ser transmitida no contraturno regular, paralelamente ao padronizado. A prosperidade privada se concretiza quando ela vem ao encontro do interesse público. E é por isso que se recomenda que nossos filhos tenham habilidades naqueles saberes eleitos como os mais relevantes para a coletividade. Essa tabulação de saberes, ordenando-os em graus de primazia e demanda, escapa não só às famílias, mas ao próprio Estado. O Brasil, e não apenas as famílias, precisa alinhar-se com as tendências mundiais. A economia e a configuração da técnica têm prevalência sobre as escolhas que fazemos, a começar pelos conteúdos a serem aprendidos ou assimilados. Além da questão da matriz comum, emergem elementos outros que reclamam uma espécie de universalidade, e, para ser bem direto, reporto-me ao processo de socialização. Sim, no homeschooling também pode haver socialização. Mas ela terá outro matiz, diferente daquele encontradiço na escola tradicional. Dentre outros itens constantes do rol de atribuições e competências escolares, um deles é a capacidade de conviver com outros sujeitos, comunicar-se com eles, e firmar relações úteis e significativas. No ambiente escolar o estudante se sente parte de um todo. A escola é a mediação entre a família (particular) e a nação (universal). As instituições atravessam épocas, a família é transitória. A instituição escola exibe maior experiência acumulada do que a maior parte das famílias. A não ser que se trate de uma família muitíssimo tradicional. Uma família integrante da realeza, ou dona de uma empresa secular. Existe um discurso muito forte, que já vem de bastante tempo, de acordo com o qual a escola seria um dos maiores problemas sociais de nosso tempo. Essa visão está errada! A escola não é a gênese dos problemas sociais. Ela é o lugar onde as demandas sociais e todo tipo de problema se acumula e se manifesta. Então, logicamente, a escola não pode resolver tudo. É preciso que haja um protocolo de rede que permita fazer as mais variadas articulações, que respaldem os encaminhamentos que partem da unidade de ensino. Gize-se, aliás, que essas referências e contrarreferências já vêm sendo feitas. Disso se infere que, se uma criança é negligenciada e frequenta a escola, a situação de negligência bate à porta do sistema de garantia de direitos. Mas se o infante fica recluso no ambiente doméstico, quem haverá de identificar negligência? Nesse sentido, o homeschooling será uma verdadeira máquina de abandono de crianças e adolescentes. Como sói o provérbio africano, “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Calha à fiveleta!

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