Jornal Liberdade
Cuba x Japão

Cuba x Japão

A dificílima arte da comparação

Cléverson Israel Minikovsky
09 de julho de 2026
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Quem tem WhatsApp sabe que ali no perfil da pessoa, onde é postada a imagem do titular da conta, é possível colocar imagens e sons, e, até mesmo, vídeos. Num dia destes, abri o perfil de uma parenta minha, e pude ver uma comparação entre Cuba e Japão. O roteiro exibia os lugares mais sujos e desorganizados de Cuba, dizendo que isso seria resultado do governo de dois irmãos ditadores socialistas – estaria se referindo aos Castro, sejam eles, Fidel e Raul? Na sequência, era exibido um tour na região metropolitana de Tóquio, ressaltando a engenharia da infraestrutura, a copiosidade predial, e as luzes noturnas a fazer da conurbidade um xou de luminescência, algo próximo de um panorama futurista, digno do ambiente de um jogo virtual. E a conclusão? Ou seria explicação? De toda forma, a sugestão era esta: o Japão, depois de duas guerras (mundiais), uma verdadeira maravilha. O exato oposto de Cuba. Infere-se, portanto, que o socialismo é uma praga, e que a guerra é a maior das bênçãos. Insta esclarecer que esse reducionismo não consegue minimamente refletir a realidade que pretende explicar e criticar. Os dois arquipélagos referidos tiveram relações de diferentes naturezas com os Estados Unidos da América, o que impactou e influenciou fortemente o curso de suas histórias sociais, políticas e econômicas. O Japão foi alvejado por duas bombas atômicas mas, ao término da guerra, o país foi reconstruído com financiamento norte-americano e outras espécies de incentivo. Já Cuba passou pela revolução socialista em 1959, em outubro de 1962 serviu de palco à crise dos mísseis, dado que a URSS queria instalar no país caribenho uma base militar balística, e, do início do castrismo, até agora, e com maior ênfase, a ilha está sufocada por embargos econômicos oriundos de Washington. Quem visita Havana, percebe que o tempo parece ter parado na década de cinquenta do século passado. Digo isto, tendo como marcador a parafernália tecnológica usada ali, sobretudo à frota de veículos. Muito se fala da medicina cubana, porém, consigno que é um erro não elogiar os engenheiros cubanos, pois eles são campeões de reaproveitamento e adaptação tecnológicos. Cientistas sociais, escritores e poetas cubanos, outrossim, merecem nossa deferência. Chegado aqui, quero falar do povo cubano e do povo japonês. Em Cuba, com falta de energia elétrica, escassa internet, falta de alimentos e remédios, tendo que enfrentar fila para comprar um rolo de papel higiênico, o que vemos é um povo unido, com forte sentimento de patriotismo. Eles sabem de onde parte a opressão. Os vizinhos conversam entre si. Circulam pelas ruas as mulheres cubanas, notórias por sua beleza. Aliás, neste quesito, em algum aspecto, elas se parecem com as mulheres brasileiras. Predomina um sentimento de solidariedade e empatia, além do calor tropical, há calor humano. Lado outro, em que pese ser o povo japonês muito trabalhador, ordeiro e honesto, percebe-se um retrocesso civilizacional. As relações entre as pessoas arrefecem. Faz parte da cultura do país trabalhar intermináveis horas extraordinárias para o patrão, sem contrapartida salarial para tanto. E as pessoas ficam sem tempo para convivência familiar e comunitária. As pessoas não querem mais casar-se, não querem mais ter filhos. Numa sociedade totalmente voltada ao trabalho e à economia, é também a economia do país que corre sério risco. A natalidade está num patamar baixíssimo. O que percute na oferta de mão de obra para o mercado de trabalho. As pessoas desaprenderam a ser gente. As relações interpessoais estão decadentes e declinando. Muitos japoneses, não conseguindo esposas, recorrem ao expediente de se casarem com estrangeiras, sobretudo chinesas. Muitas pessoas se enclausuram por opção. O mundo lhes parece demasiado hostil. E os serviços on-line, permitem que a pessoa resolva quase tudo, sem ter que colocar os pés para fora da porta do próprio apartamento. No Japão, ou você é uma pessoa de alto rendimento, ou você não é ninguém. O Japão tem tudo o que o dinheiro pode comprar, mas falta o essencial, que, como disse Saint-Exupéry, “é invisível aos olhos”. Cuba tem o mais importante, pessoas, almas viventes, faltando-lhes gêneros de primeira necessidade. Mesmo com o fomento ianque, digo que os japoneses fizeram o Japão sozinhos, com o suor do seu rosto. Parabéns a eles por isso! Já os cubanos estão amargando recessão e carestia em função de ingerência externa. O país mais poderoso do mundo decidiu roubar-lhes o direito sagrado da autodeterminação dos povos, o direito de soberania política. Nem tudo é direta e imediatamente resultado de um regime econômico. A realidade é mais complexa. Como reparou Montesquieu, ao apreciar a lei de um povo, é necessário tomar em conta o clima, a geografia, a psiquê do elemento humano ali presente, os hábitos e costumes, a religião, o idioma, e por aí vai. Essa panorâmica corresponderá de maneira mais fidedigna ao propósito de teoria explicativa, indubitavelmente.

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