Fantasma do Contestado: O que Realmente Está por Trás da Criação do Parque Nacional Araçatuba-Quiriri?
Por Alan Alves Moreira
A calmaria secular que molda as paisagens de Campo Alegre, Joinville e de toda a região do Planalto Norte de Santa Catarina está sob forte ameaça de intervenção externa. Sob o manto da "salvação ecológica", o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) avança com os estudos para a criação do Parque Nacional das Serras do Araçatuba e Quiriri. O projeto prevê engolir cerca de 32,7 mil hectares na divisa entre o território catarinense e o Paraná. No entanto, para quem vive da terra, produz e conhece a história do nosso estado, a iniciativa acende um sinal de alerta vermelho: o fantasma da Guerra do Contestado parece estar voltando.
Oficialmente, o discurso governamental defende a proteção da Mata Atlântica e o turismo. Todavia, a pressa e a falta de transparência sobre o que de fato há no subsolo e no solo dessas áreas geram desconfiança. Estaríamos diante de uma causa estritamente ambiental ou de um interesse oculto por minerais estratégicos, como as terras raras? Estaria Brasília abrindo espaço para a influência de ONGs e forças estrangeiras sobre a nossa soberania territorial?
A Lição Sangrenta do Passado: A Ferrovia da Brazil Railway
Para entender o temor das famílias tradicionais, produtores rurais e posseiros do Planalto Norte, basta revisitar o maior conflito civil da história de Santa Catarina: a Guerra do Contestado (1912-1916).
Naquela época, o pretexto do governo federal era o "progresso" através da construção da ferrovia que ligaria o Rio Grande do Sul a São Paulo. Para viabilizar a obra, o Estado brasileiro concedeu os direitos de construção a uma empresa estrangeira, comandada pelo americano Percival Farquhar. O ponto central da discórdia — e do posterior conflito — foi a polêmica concessão de terras dada pelo governo à multinacional: uma faixa de 15 quilômetros de largura de cada lado da linha férrea.
O resultado foi devastador. Milhares de sertanejos, posseiros e pequenos agricultores que viviam e produziam naquelas terras há gerações foram despojados de suas vidas para dar lugar à exploração internacional e à colonização corporativa. A imposição vinda de fora ignorou a realidade local e gerou uma revolta armada que custou milhares de vidas em solo catarinense.
O Novo "Contestado" sob a Roupagem Verde
Guardadas as proporções do tempo, o mecanismo debatido hoje sobre a Serra do Quiriri guarda semelhanças que preocupam a comunidade com o passado. Mais uma vez, decisões tomadas em gabinetes distantes em Brasília pretendem redefinir o direito de propriedade no interior do estado.
Transformar a região em um Parque Nacional significa aplicar a categoria de Proteção Integral. Na prática, isso pode resultar em:
Desapropriações: Famílias que cuidam e preservam a terra há gerações temem ser forçadas a deixar suas propriedades.
Restrições Severas: O fim de atividades agrícolas, pastoris e o engessamento do desenvolvimento econômico de municípios como Campo Alegre e Garuva.
Soberania em Xeque: A entrega da gestão ou o forte controle de vastas áreas territoriais nas mãos de burocratas que respondem a fundos e diretrizes internacionais.
A história nos ensina que, quando o governo central decide intervir de forma rígida no zoneamento e na posse de terras no Sul do Brasil, os impactos sociais são profundos. A população do Planalto Norte não é contra a preservação — afinal, fomos nós que mantivemos essas serras de pé até hoje. Somos contra a falta de clareza, a imprecisão sobre as riquezas minerais camufladas nesses relatórios ambientais e, acima de tudo, contra o atropelo da nossa autonomia.
O Quiriri é nosso, e os erros do Contestado não podem ser repetidos.
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