
Decisão “cristã”?
O cristianismo está acima da cultura: uma reflexão sobre imigração a partir do viés missiológico no contexto polonês
Alguns vídeos da rede têm apresentado a Polônia como modelo mundial a ser seguido e replicado. Segundo consta em suas falas, os influenciadores atribuem o fato de a Polônia ser o país mais seguro da Europa por ter fechado suas fronteiras aos refugiados islâmicos. Como é sabido, a Polônia é o país mais católico do continente. As lideranças do país escolheram priorizar a própria cultura e seu modo de viver e pensar. A Polônia já teve experiências bem ruins quando foi quintal de potências estrangeiras. Ou como diria Lech Wałęsa, “nós, poloneses, passamos o inferno nas mãos de Stalin”. Os poloneses, portanto, têm convicção de que autonomia, soberania e não ingerência externa é a receita perfeita para que tudo vá bem. A Grã-Bretanha e a União Europeia dispõem, inclusive, de estatísticas para identificar a procedência dos autores de fatos típicos e antijurídicos. O elemento estrangeiro está mais propenso a protagonizar estas situações, sobretudo se a sua religião for o islamismo. Todavia, a Europa toda abriga estrangeiros e maometanos, e a proporção de acolhidos não problemáticos e acolhidos problemáticos logo exibe o perfil excepcional daquele que encadeia tumulto. Entrementes, ainda não cheguei ao ponto que pretendia chegar. Meu modo de ver é este: o cristianismo é, ou deveria ser, por excelência, a religião voltada para a alteridade. O cristianismo sempre é voltado para a pessoa do outro. Nós, que agora somos “eu”, um dia fomos “outro”. O trabalho missionário não parou. A messe continua grande. Abrir-se para aquele que ainda não recebeu a mensagem, ou não a compreendeu, implica correr riscos. Em nenhuma parte da Bíblia está escrito que é seguro ser cristão. A Bíblia apenas nos adverte de que não devemos temer aqueles que podem matar o corpo, mas devemos temer aqueles que podem matar o espírito. Entendo, ainda, que acolher refugiados de religião islâmica, é o pressuposto de qualquer estratégia voltada ao envio de missionários cristãos para terras do Oriente ou da África, em que os maometanos são majoritários. Com todo respeito e amor que tenho aos poloneses, até porque sou descendente dessa cepa étnica, fechar-se aos islâmicos sob pretexto de uma espécie de pureza cristã, é tão farisaico quanto um judeu não dialogar com um samaritano, pelo simples fato de ele ser quem ele é. Os poloneses elegeram uma diretriz sociológica tão conservadora quanto aquela que se verifica nos países islâmicos, e que eles deploram. A coletividade, destarte, fechou-se ao dinamismo, o que, hipoteticamente falando, teria o condão de emperrar a expansão do Reino de Deus e a sua justiça. Os países europeus, como carro-chefe da civilização, deveriam dar o exemplo como adimplentes do princípio da solidariedade entre os povos. Não são os islâmicos que estão combalindo o cristianismo europeu. A sua religião apenas figura como opção, para aqueles que se desencantaram com o cristianismo. A razão do desapontamento? A crítica vinda de intelectuais autóctones. A solução? Não banir os pensadores e o pensamento, mas mostrar que teorias e abordagens críticas têm como propósito primeiro levar as pessoas a um nível mais alto de compreensão, e não matar a sua própria identidade, esta, quase sempre ligada à religião. A filosofia europeia, desde o berço, vem ao mundo como proposta totalizante e universal. Por conseguinte, não há lógica alguma em ostentar discurso universalizante e fechar-se ao outro, àquele que é oriundo da periferia, do território marginal. Porque a universalidade desdobra-se em várias dimensões, inclusive na dimensão espacial. Não há como amar o próximo, se sequer admito que, quem está distante, tome a decisão de aproximar-se da minha pessoa, eu, o pescador de homens. Um cristão brasileiro elogiar um cristão polonês, porque ele deliberou priorizar a sua segurança e os seus interesses pessoais, fechando-se à obra redentora da evangelização, é uma contradição em termos. Despiciendo perpetrar grandes manobras hermenêuticas. O cristianismo é a religião do amor, e onde impera o amor, o medo não dura. Cristo se deixou crucificar por aqueles a quem pregou a boa-nova. Este é o modelo, o grande norte. Da Polônia veio João Paulo II, o papa que “venceu o socialismo”. Quem teve a galhardia de vencer o socialismo, por que temeria anunciar as maravilhas do Evangelho aos adeptos de Maomé, eles que não se acham na escuridão total, mas na penumbra entre o claro e o escuro? Que os poloneses reflitam sobre as próprias decisões políticas, e que também nós, brasileiros, tomemos este caso como ponto de partida para os debates. Uma decisão simples, e aparentemente correta, pode estar deixando de fora do aprisco almas valiosas para Deus. A lucerna deve resplandecer sobre todos e ser posta no alto. Nós, os cristãos, temos aquela riqueza que, quanto mais se divide, mas se multiplica. Luz!
Comentários
Faça login ou cadastre-se para deixar seu comentário.



