Jornal Liberdade
Alan Greenspan

Alan Greenspan

Toda uma vida, e que vida!

Cléverson Israel Minikovsky
06 de julho de 2026
43 visualizações

Em 22 de junho de 2026 faleceu o economista norte-americano Alan Greenspan, aos cem anos de idade. Ele foi presidente do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano. Seu trabalho à frente desta instituição espraiou-se por dezoito anos e meio, ou por cinco mandatos, sob quatro presidentes da República, republicanos e democratas. Greenspan foi o responsável pela bem-sucedida política monetária nacional ianque, praticada no período em que ele tinha em mãos a batuta que definia o percentual da taxa de juros. A economia do seu país assistiu a uma incontestável expansão em cujos dias ele foi o prerrogado que definia as regras do jogo do mercado financeiro. Por anos a fio ele manteve a taxa de juro em baixo patamar. Esse foi o seu norte até 2006, ano em que deixou o cargo. Muitos o responsabilizaram pela crise imobiliária de 2008. Se Greenspan teve responsabilidade nisso, não quero ser tão categórico. Fato, é que a crise imobiliária foi reflexo da concessão desmedida de crédito, o que, em dado momento, esbarrou no fantasma da insolvência. O amável leitor já deve ter ouvido falar no brocardo “pais ricos, filhos nobres, netos pobres”. O poviléu, não raro, costuma verbalizar a história clichê, de acordo com a qual os pais se desdobram e se desgastam no trabalho, para construir um patrimônio, ao passo que os filhos, como entidades diabólicas, colocam tudo a perder. Na verdade, não é bem assim, ou não precisa ser assim, sempre e necessariamente. No caso de empresa familiar, que está na mão da segunda, terceira ou quarta geração, o panorama pode ser bem complexo. A economia de décadas atrás era menos complexa e menos propensa a instabilidades. A mudança de paradigmas tecnológicos assumiu um dinamismo nunca antes visto. Fosse possível, netos e bisnetos de pioneiros, ressuscitariam do jazigo os idealizadores de um negócio, para ter a graça de ouvir um bom conselho. A realidade, contudo, mostraria que nem os “iluminados” precursores têm a solução para todos os problemas. A vida é enigmática, e não apenas no setor fabril. O que sempre funcionou, de repente, não funciona mais. A pergunta não é se “funciona ou não”, mas “até quando vai funcionar”. Sim, porque tudo tem um ciclo. O que, em determinada data, é um baita sigilo industrial, tempos depois, pode vir a ser uma verdade óbvia e trivial. Não é algo simples, ou pouca coisa, atravessar mudanças econômicas e tecnológicas, mudança de hábitos de consumo, de mentalidade, e continuar relevante. O capitalismo, e o mundo no qual ele existe, é um ambiente sujeito ao influxo de muitas marés. E nem um gênio da estatura de Greenspan, alcança um nível tal de predição, capaz de esquivar-se de toda instabilidade. Melhor do que responsabilizá-lo pela crise hipotecária, seria reconhecer seus méritos aos quais liga-se a bonança da época das vacas gordas. Com todo o crescimento de China, Índia e Rússia, bem como com o crescimento dos outros países do BRICS, os EUA continuam sendo a maior economia planetária, e é altamente desejável que a política econômica e financeira desse país seja muito bem gerida. O mundo espera dos norte-americanos uma gestão racional, e não uma arbitrariedade tosca e cega, como os tarifaços que caracterizaram o trumpismo. A biografia de Greenspan mostra que os tempos de outrora eram melhores do que os de agora. Ele permaneceu no cargo em razão de sua perícia profissional e técnica, em razão da sua competência e notório saber. O que contrasta com os dias de hoje, em que os políticos se fazem rodear por aqueles que concordam com eles, independente de fatores de ordem racional ou senso de realidade. Se é mesmo verdade, que somos nossas memórias e as responsabilidades que assumimos, Greenspan inscreveu seu nome entre os maiores: afinal, uma vida que dura um século tem muita história para relatar, e gerir um órgão da grandeza de um Federal Reserve, é piano que poucos dão conta de carregar. Fixar um percentual de juro com precisão cirúrgica emerge como medida digna de encômios. No entanto, para além disso, vejo que os EUA e os demais países precisam, imediatamente, encerrar seus desperdícios com as guerras que estão em andamento, devem evitar a contração de mais dívidas ignorando o limite prudencial de suas capacidades de endividamento, e focar mais em políticas sociais. A razão de existir do Estado é o bem dos seus cidadãos. Esta verdade singela e basilar foi perdida de vista. O eleitor norte-americano precisa fazer um diagnóstico político, para aferir se os seus representantes estão fazendo acontecer os ideais constitucionais democráticos, ou se a democracia é só uma fachada, a esconder o verdadeiro regime ianque que, no fundo, não passa de uma plutocracia. É a diferença entre os republicanos e os democratas. Os democratas são democratas até no nome.

Compartilhar:

Comentários

Faça login ou cadastre-se para deixar seu comentário.

Carregando comentários...