
A esquerda (no Brasil) e a democracia
Uma reflexão sobre viés político, classe social, democracia e soberania
Dias atrás eu estava lendo um artigo de opinião, em que a provocação era esta: “a esquerda salvará a democracia liberal”. O mote sugere que a democracia é filha parida do ventre da burguesia, que ela está a perder-se, mas, finalmente, será salva por sua rival, a esquerda. Marx e Engels, em O Manifesto do Partido Comunista, reconhecem que a burguesia foi uma classe social revolucionária. A democracia e os valores democráticos estariam na dianteira desta vanguarda. A dar crédito a esta percepção, a esquerda estaria reconhecendo o viés progressista da democracia, e, por isso mesmo, esse regime de governo deveria ser defendido e promovido. O oposto do progressismo é o conservadorismo. Este, infelizmente, está na ordem do dia. Se bem que, é claro, refogado ao azeite da hipocrisia. A época de hoje é caracterizada pela inversão de falas e papéis. O ator mexicano Gael García Bernal declarou: “Es increíble que figuras como el Papa o el Rey sean mucho más sofisticadas que los políticos actuales”. Getúlio Vargas, um dos maiores ícones da história política de nosso país, oscilou entre a democracia e a ditadura. Quando foi possível empoderar-se pelo sufrágio livre e espontâneo, assim o fez, e quando precisou recorrer à coerção, não hesitou em fazê-lo. Lula foi o único mandatário a ostentar a procuração outorgada, livre e legitimamente pelo povo brasileiro, por três vezes. E, a depender das pesquisas, o quarto mandato se avizinha. Esse idoso, de oitenta anos de idade, é o que temos de melhor em termos de valores jurídicos, políticos, filosóficos e sociais. Lula é um estadista que se faz investir de poder pela democracia, e, uma vez empoderado, exerce os poderes delegados dentro dos limites constitucionais e democráticos. Lado outro desta realidade, por questão de simetria, seria o viés da direita. A direita, em tese, representa os interesses da burguesia, essa classe social que, como dissemos, celebra a democracia. Porém, na prática, o que o último governo de direita pretendeu perpetrar? Um golpe de Estado! Sim, promoveram uma investida contra o Estado Democrático de Direito, contra suas instituições, contra membros do Poder Judiciário, dentre outras barbaridades. Ao menos para esta direita, que aí está, a democracia não representa mais nada. Enquanto a democracia lhe beneficiava, ela era apresentada como um valor sagrado. Bastou as urnas canalizarem o prestígio para uma figura política alinhada com o quarto estado, -aquele estado que não é nem clero, nem nobreza, nem burguesia, mas um explorado trabalhador, - que a democracia passou a ser pintada como um diabo feio. A partir daqui, a esquerda passa a realizar a função de redentora da democracia. Esse evento institucional é, no mínimo, extraordinário. Porque a própria burguesia não consegue realizar os interesses de sua classe sem o pressuposto das garantias democráticas. Se, num primeiro momento, a burguesia era a estrela que promovia as providências necessárias para a consecução dos próprios objetivos e, de quebra, proporcionava as bases sociais a partir das quais toda coletividade auferia a viabilidade da autossubsistência, presentemente, esse ofício calha à esquerda. A esquerda, em algum sentido e por um prazo razoável, deu conta de se fazer voz hegemônica dentro do panorama democrático. O Partido dos Trabalhadores é a ala que fala por si e pelos outros. Afinal, quem não trabalha? Até gastronomia e entretenimento implica trabalho, dentro do conceito físico e científico de “trabalho”, ou seja, “uma grandeza que mede a energia transferida para um corpo através da aplicação de uma força que provoca o seu deslocamento”. No bojo da democracia acha-se ínsito outro valor político importante, o da soberania. Toda vez que colocamos no alto da gestão um compatriota, estamos assumindo que devemos ser governados por nós mesmos. Estamos a declarar que somos grandes demais para caber no quintal de outrem, estamos a declarar que não somos e não podemos ser uma sucursal de outra nação. O que se acha em curso não versa sobre partidarismo siglatário, sobre ideologia teorética e filosofesca. O de que se trata é de uma questão de justiça e civilidade. Cristianismo e socialismo, esquerdismo e democracia liberal, tantos conceitos e tantos ismos, sempre a resguardar o amor ao próximo e a si. Os intelectuais avocam para si este trabalho: estruturar novas teorias para resolver velhos problemas. Teorias são pratos-feitos, sempre que o relógio acusa meio-dia, é preciso servir algo. Muito embora as últimas populares gestões petistas, efetivamente, tenham realizado conquistas indiscutíveis, desde infraestrutura a direitos humanos, ser governo passa também por isso, pela capacidade de vender o novo, criar expectativa, insinuar que os mais oníricos desejos realizar-se-ão. Lula tem tido êxito nisso tudo! Viva a democracia liberal!
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