Telhado Verde
Repensando arquitetura e urbanismo
França, Alemanha e Japão aprovaram leis determinando a adoção compulsória de “telhados verdes”, também chamados de “coberturas vivas”. Na Alemanha, a regra vale em apenas algumas cidades. No Japão, a obrigatoriedade diz respeito a um percentual da metragem da cobertura predial. Em todos os três casos, a regra vale para a edificação de novos prédios. A tal cobertura teria a espessura mínima de 15 centímetros. Diferentes tipos de flora podem ser introduzidos nestes espaços, inclusive pequenas árvores. Essa “esponja” é capaz de reter até 75% da água da chuva. A ideia faz parte do conceito de “cidade-esponja”. O fluxo da drenagem é desacelerado, pelo que ocorre menor extrapolamento da capacidade de vazão instalada. Outra vantagem é a regulação térmica. Os processos de sombreamento e evapotranspiração asseguram menor oscilação de temperatura, comprimindo para baixo a média de temperatura. A regulamentação, desse tipo de matéria, faz denotar o poder de uma forma de conhecimento sugestiva tornar-se prescritiva. O que era tendência, agora, é obrigação. As grandes cidades sofrem com temperaturas extremas, sobretudo com o calor, aqui no Brasil. O concreto é um material que ganha e perde calor muito rapidamente. O telhado verde é um contrapeso a essa célere volatilidade. O telhado verde ainda pode estar casado a alamedas e à existência de parques e áreas verdes. Nesse ambiente se começa a pensar, também, na meliponicultura urbana. Enquanto o legislador federal não se digna dar vigor a uma iniciativa legal análoga à dos três países retromencionados, seria altamente recomendável que os Municípios inserissem em seus respectivos planos diretores, diretrizes sinalizando no mesmo sentido. Calha muito bem, a referida ideia-conceito, neste contexto global de crise climática. Quando as edificações respiram, a própria atmosfera fica mais respirável para os seres humanos. Água que é absorvida, deixa de ser água que corre para a depressão. Telhado verde não reflete calor, absorve e processa calor. Essa película de terra é suficiente para viabilizar um grande número de vidas da microfauna, como insetos e vermes, o que potencializa polinização e recurso alimentar para as aves. Compreendemos que precisamos mesclar o artificial e o natural. O espaço urbano não pode e não deve ser uma oposição ao ambiente natural, caracterizado pela menor intromissão antrópica. Pelo contrário, ele deve buscar se integrar à área florestal, mais ou menos próxima da concentração urbana. Passado tanto tempo da publicação de A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin, a impressão é que só agora começamos a compreender as lições mais basilares da disciplina de ecologia, uma subárea da biologia. Num tempo não tão distante, a ausência do verde da vegetação fora tido como indicador de progresso, e, presentemente, por progresso se entende o inverso: a comunhão entre a natureza transformada e a natureza em seu estado original. Vencer a natureza não consiste em suprimi-la do contexto, mas em trazê-la para dentro dos fluxos sociais, fazendo-a nos beneficiar a partir das suas propriedades intrínsecas. Trata-se, portanto, de ampliar e universalizar os princípios da engenharia. A alma da engenharia repousa em identificar, conhecer e controlar o comportamento dos materiais e dos fenômenos físicos, químicos, elétricos e magnéticos em geral, sojigando-os aos nossos interesses de uso e aos nossos interesses econômicos. O mundo circunstante, aí está, para ser administrado, e não para ser negado ou combatido. Se a novidade jurídica tiver ampla aceitação, e inspirar a replicação em larga escala, o efeito esperado, a longo prazo, será uma mudança no clima, exatamente e na mesma proporção, como a supressão da cobertura verde, nos últimos séculos, afetou o clima do planeta. As cidades do sul do Brasil deveriam ser pioneiras na adoção desse modelo de cobertura. Isoladamente, é o tipo de ação que não anula uma catástrofe, como a que ocorreu no Rio Grande do Sul, em 2024. Todavia, num leque de viabilidades, é mais um fator de promoção do equilíbrio ambiental. Como dizia o santo que amava a natureza, Francisco de Assis, “primeiro faça o necessário, depois faça o possível, e logo mais você estará fazendo o impossível”. É a mudança cultural, que se desdobra em novas práticas de pequenas atitudes, que carrega consigo o poder de causar o mundo que queremos. Desafio o amável leitor, a se antecipar ao legislador, difundindo esta prática que vem se consolidando nos países desenvolvidos. O telhado verde é o aprimoramento daquilo que se convencionou chamar de “cidade planejada”. O planejamento vem escalando em eficiência, complexidade e detalhamento. Esse amor à racionalização continua em andamento. Não é por nada que Paris, a cidade-luz, agora é a cidade verde. Por paradoxal que seja, inovar, para alguns, já é uma tradição!
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