Jornal Liberdade
Vai um drinque?

Vai um drinque?

Uma pequena crônica: a escrita plagiando a vida!

Cléverson Israel Minikovsky
16 de julho de 2026
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Aquele 24 de fevereiro de 2022 mudaria radicalmente o cotidiano dos ucranianos. Muitas caixas de Pandora teriam seu selo rompido, liberando o que deveria permanecer recluso para todo o sempre. A guerra é um negócio lucrativo ou interessante para aqueles que, simplesmente, despacham em gabinetes climatizados. O soldado em campo de batalha, na real, é o menos interessado. Até o momento em que é promovida uma eficaz lavagem cerebral. Como disse Boaventura de Sousa Santos, “soldados são coisas que temos, e não o que somos”. Aliás, se for para colocar de lado o ter, e preconizar o ser, a guerra, que nunca fez sentido, perde ainda mais seu propósito, desde que a cultura e o idioma ucraínos podem ser compreendidos como uma variância do russo. Essa guerra, portanto, é fratricida. Por mais que a instabilidade bélica relativize a vida e tudo o que ela implica e comporta, o fato é que a vida não para, mesmo numa situação tão extrema como a guerra. Mais que isso, a guerra pode criar novas situações de vida. Como é o caso das jovens ucranianas que ofertam o serviço, se é assim que se pode chamar, de barriga de aluguel. A título de exemplificação, para as empresas que fabricam drones, esta guerra está sendo, como se diz na gíria, um negócio da China. Quem é conhecedor da tradição filosófica, bem sabe que, muitas célebres obras na seara especulativa, vieram a lume sob estampido de granadas e canhões, ao tempo das duas Grandes Guerras, que assolaram a Europa e envolveram o mundo todo. Hoje, mais do que nunca, as guerras são híbridas. É preciso estar bem informado, conhecer as fortalezas e fraquezas do adversário. Na Bíblia vemos a figura de Josué e Calebe que, ao lado de outros dez espias, vão fazer um levantamento do panorama do território a ser conquistado. Na Roma Antiga havia a figura dos frumentarii. Enquanto a guerra está em curso, não é muito simples a um agente secreto russo, entrar na Ucrânia, e enviar dados. Sendo assim, é mais fácil aliciar ucranianos mercenários para fazer esse trabalho sujo. Em tempo, “mercenários”, no masculino? Não foi Maquiavel quem disse que “a verdade é mulher, e muda a versão conforme lhe apraz”? Pois bem, quero apresentar, ao amável leitor, duas pessoas, Solomiya e Maksym. Eles são ucranianos, mas não se conhecem. Solomiya recém havia concluído sua tese de doutorado e começou a lecionar sociologia na universidade. Ela emplacou todos os seus recursos, e o tempo disponível, para conquistar o referido grau acadêmico. Eu não diria que ela jamais suspeitaria do advento da guerra. Até porque, em 2014, a Rússia anexara a Crimeia, e essa medida radical não calhou bem, nem à Ucrânia, nem aos demais países da Europa. E o descontentamento inquinava os dois lados da narrativa, dado que o Kremlin assistia à Ucrânia aderindo à OTAN, com o maior dos desapontamentos possíveis. Não obstante, o que faria Slomiya? Qual a ingerência do indivíduo sobre os acontecimentos de macroenvergadura? Com a deflagração e escalada do conflito, Slomiya perdeu seus alunos, emprego, salário, parte da família, e o diploma doutoral foi reduzido a uma lembrança, um pedaço de papel que um dia parecia desvelar, à sua titular, um futuro garantido. Tendo perdido familiares e amigos, sem emprego e sem renda, sem qualquer arrimo, submeteu-se a todo tipo de serviço, mesmo os mais desqualificados. É a lei da subsistência. Maksym, por sua vez, foi um jovem camponês, que ingressou nas Forças Armadas da Ucrânia, sonhando galgar altas patentes. Diferentemente de Slomiya, viu a guerra como a grande oportunidade de sua vida. Como o médico faz prova de sua proficiência diante de uma mesa de cirurgia, o militar enxerga a guerra como o ambiente perfeito para mostrar suas habilidades. Como ninguém é de ferro, Maksym, episodicamente, utilizou um aplicativo de encontros, num dos raros intervalos de que dispunha. Combinados local e horário, lá estava sua acompanhante, linda e vislumbrante. O nome dela? Slomiya! Receptiva e acolhedora, a anfitriã tratou de quebrar o gelo e fazer com que seu cliente se sentisse “à volonté”. Depois de umas carícias, e, antes da cópula, Slomiya sugeriu um drinque para dar uma relaxada. Afinal, a pressa é inimiga da perfeição. Precipitação e afobação comprometem a qualidade do programa. Maksym foi com avidez ao copo, até porque, ele sempre mandou muito bem nos coquetéis. Passados menos de três minutos, Maksym adormeceu para nunca mais acordar. Slomiya lucrou com o dinheiro do cliente e, bem mais promissor do que o cachê, o depósito procedente do departamento de inteligência russo lhe asseguraria o básico, alçado de algum conforto.

 

NB: a crônica é fictícia, os nomes são figurativos, mas é fato que militares ucranianos estejam caindo em armadilhas, dentro dos exatos moldes aqui relatados. É, como se pode perceber, mais um expediente oriundo de Moscou e empregado em nome do êxito da guerra.

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