Objetivamente falando
Agora sim, podemos falar, de fato, em uma "civilização brasileira". Reflexões sobre o Índice de Desenvolvimento Humano
Pela primeira vez, em sua história, o Brasil passou a ser considerado um país com IDH – Índice de Desenvolvimento Humano muito alto. Quando o IDH ultrapassa a marca de 0,800 ele é tido como “muito alto”. O Brasil bateu 0,805. O marcador oscila entre 0 e 1. Quanto mais perto de 1, melhor. Se o amável leitor se considera um administrador completamente guiado pela racionalidade, calculista e frio, que sempre toma decisões calcadas em números, os números aí estão. Não estamos falando apenas de um marcador econômico, mas de um fator social e civilizacional. Nunca antes havíamos chegado a este patamar. Os critérios que compõem o índice são expectativa de vida, escolaridade e renda. A expectativa de vida ficou em 0,860, a educação ficou em 0,798, e a renda em 0,508. A expectativa de vida média de um brasileiro gira em torno dos 76,6 anos, mais especificamente, 73,3 anos para os homens, e 79,9 para as mulheres. Esses números assinalam o sucesso de várias políticas públicas sociais, entre as quais temos o Programa Bolsa Família. As condicionalidades para a percepção do benefício incluem carteira de vacinação em dia e a frequência à escola. O processo de democratização da política nacional brasileira repercutiu no sentido de nos tirar do mapa do atraso. Modernização é uma vida de qualidade. É desejável que tenhamos um grande PIB - Produto Interno Bruto, uma balança comercial equilibrada ou superavitária, inflação sob controle, pleno emprego ou um bom índice de trabalhadores com carteira de trabalho assinada, uma grande massa salarial, um bom poder salarial aquisitivo, uma boa renda per capita, e por aí vai. Mas o IDH, embora reflita, em alguma medida, tudo isso, é algo que importa mais que tudo isso. Essa conquista histórica não teria sido possível sem a matriz jurídica enunciada na Carta Magna de 1988, tampouco se materializaria sem o empoderamento reiterado de um partido popular casado com uma ideologia social, humanizadora e libertária. Entretanto, essa estrondosa notícia veio ladeada por outra enorme conquista laboral. Foi aprovada iniciativa legal que abole a jornada de trabalho 6 x1, redesenhando a relação empregatícia para o formato 5 x 2. As 44 horas semanais passaram para 40. Isto significa que o trabalhador terá mais tempo para usar no estudo, lazer, ou convivência familiar e comunitária. Além de oferecer ao corpo e à mente, um prazo maior, para descansar e se recompor. Enquanto ucranianos, palestinos e iranianos colocam a cabeça no travesseiro, sem saber se poderão abrir os olhos na alva do dia seguinte, afinal uma bomba pode explodir a qualquer momento, visto que o país mais capitalista do mundo não poupa nada e nem ninguém quando o que está em jogo são seus interesses econômicos, nós, aqui no Brasil, estamos vivendo o que jamais havíamos vivido. Precisamos consolidar estas conquistas, evitando retrocessos ou desmontes do que foi erigido a muito custo. É um trabalho interno e externo. Dentro de casa, nossa lição é continuar promovendo conscientização, ao passo que, externamente, o trabalho passa por muito diálogo, diplomacia e acordos vantajosos para os dois, ou para todos os polos. Uma universidade aberta ao povo é a oportunidade da grande tomada de consciência. Não adianta a burguesia dizer que faculdade não assegura diferencial de renda. Se a pessoa estudar e, com esse estudo, progredir em sua condição econômica, ótimo. Mas o estudo, em primeira mão, não serve para enriquecer, mas para humanização e conscientização. Todo cidadão pertence a uma classe social. E naturalizamos estas coisas. A universidade abre nossos olhos para o óbvio ululante. Enquanto organizações empresariais reprovaram a alteração da jornada de trabalho, classificando-a como “inadequada” e “inoportuna”, a grande mídia televisiva do Brasil não concedeu maior divulgação, a esses eventos políticos sísmicos, do que uma pobre nota de rodapé. Existe “um trabalho de formiguinha”, consistente em mobilização social, participação social, controle social (das atividades estatais) e articulação, que não tem ganhado os holofotes midiáticos. É por esta razão, que admoesto e desafio os camaradas jornalistas, engajados na causa, que procurem divulgar ao máximo informações dessa natureza, fazendo da ocasião um momento rico de doutrinação. O povo brasileiro conseguiu fazer seus anseios ascenderem ao Congresso Nacional. Ele colocou no Executivo Federal um representante com a sua cara. O complemento necessário a isto tudo, é uma comunicação popular, que confirme o sucesso das suas lutas. O que virá pela frente será muita produção cultural. Todo povo próspero celebra a sua identidade. As sombras do coronelismo cederam espaço ao luminoso protagonismo democrático republicano.
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