Edgar Morin
Uma filosofia à altura da realidade! Pensamento complexo para um mundo complexo.
Em 29 de maio, do corrente ano (2026), quem nos deixou, foi Edgar Morin, aos 104 anos de idade, sendo que, logo mais, completaria 105. Descendente de judeus sefarditas, ele participou da resistência francesa contra os nazistas. Como intelectual, deu-se o trabalho de ser, a um só tempo, sociólogo, antropólogo e filósofo. Autor de dezenas de obras, os títulos mais famosos são O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro. Ao passo que René Descartes propõe um método filosófico e científico baseado na noção de decomposição analítica, ou seja, dividir os problemas complexos até chegar ao problema mais basilar, simples e indecomponível, Morin defendia o contrário. De acordo com Morin, só podemos compreender a parte dentro do contexto da totalidade. Uma demanda complexa requer um pensamento complexo. Morin trabalha com a categoria de policrise. Estamos em meio a uma crise política, social, econômica, moral, espiritual, científica, tecnológica, cultural, etc. Ocorre que cada uma destas crises impacta as demais. E só o pensamento complexo dá conta disso. O Método é um extenso (e interessante) tratado sobre epistemologia, sobre o modo como se produz ciência, desafiando a ideia de paradigma, elaborada por Thomas Kuhn. Os sete saberes de que necessitamos são estes: 1) As cegueiras do conhecimento: o conhecimento humano é frágil e podemos ser colocados em erro e ilusão; 2) Princípios do conhecimento pertinente: consiste em compreender a informação dentro de um contexto multidimensional; 3) Ensinar a condição humana: compreender que somos culturalmente plurais; 4) Entender a solidariedade terrena: somos seres da mesma espécie e habitamos a casa comum; 5) Enfrentar incertezas: não sabemos o que o futuro nos reserva; 6) Ensinar a compreensão: sem tolerância não construiremos um mundo de paz, e, por fim, 7) A ética do gênero humano: devemos estar atentos para a democracia, para a responsabilidade social e ambiental. Em, Ciência com Consciência, Morin critica o reducionismo científico. A cada nível que subimos em complexidade, há de se empregar um método diferenciado, que recepcione as especificidades daquele novo patamar de complexidade. Os saberes estão interligados e devem ser compreendidos dentro dessa interligação. E, por fim, a consideração de que o sujeito faz parte da relação epistemológica. Por exemplo, quando o objeto de estudo é o próprio homem, o estudioso-pesquisador deverá partir da ideia de que o ser humano é biológico, psicológico, social, econômico, etc, etc. O filósofo brasileiro que comunga desse entendimento, e merece ser referido por conta de uma formulação desse pensamento, à altura de nosso saudoso mestre francófono, seria Fídias Teles. Ele que é autor de Dimensões da Angústia Humana. A pandemia foi o grande experimento planetário a confirmar as ideias de Morin. Um vírus gripal agressivo excede as fronteiras da biologia. O pensamento de Morin recebeu ouvidos atentos da UNESCO. Chegou-se a uma compreensão de que a divisão dos objetos de estudo em disciplinas exibiu-se, inicialmente, como algo profícuo, mas que, no entanto, com o passar do tempo, gerou fragmentação. Por isso, no Brasil, houve a revisão do Ensino Médio, substituindo as disciplinas tradicionais por trilhas formativas, como por exemplo, linguagens, matemática e raciocínio lógico, ciências humanas e sociais, ciências da natureza. Do ponto de vista prático, alguém ganhou muito dinheiro imprimindo esses novos materiais didáticos. Lado outro, os professores não conseguiram trabalhar a nova metodologia, visto que eles próprios foram forjados na metodologia anterior. Verificou-se que é complicado entender AB, em bloco, sem antes disso, entender, primeiro A, e, por sua vez, conteúdo B. Nada disso, contudo, invalida o pensamento de Morin. Infiro, dessa teoria, e dessa experiência prática, que o melhor é que tenhamos formações múltiplas, que sejamos polímatas, e que, a partir desse acervo de saberes, passemos a pensar complexamente, e a resolver as demandas do mundo em que vivemos. A atitude mental número um do filósofo, passa por afirmar o mundo, e, na sequência, duvidar do que sabe a respeito dele. Morin fez exatamente isso: ele aceitou e acolheu o mundo do jeito que ele é, complexo. Quanto à dúvida, esta, não raro, e, com certa frequência, passa pela elaboração de um método. Mais uma vez, Morin não deixa por menos. A saída “inter-poli-transdisciplinar” é o reconhecimento de que tudo deve ser estudado no interior de um conjunto. Se usássemos mais o método de Morin, para compreender a dinâmica do mundo, em vez de querermos mudá-lo pela violência, gozaríamos de paz, de bem-estar e de segurança. O pensamento de Morin é luz, coloquemo-lo no alto!
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