Jornal Liberdade
Argentina x Uruguai

Argentina x Uruguai

Quando a funcionalidade de uma sociedade se afere pela preferência entre esquerda e direita

Cléverson Israel Minikovsky
19 de junho de 2026
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Se o amável leitor passou os olhos no título deste artigo, imaginando que o articulista escreveria sobre uma futura próxima partida de futebol entre as seleções dos países que tiveram seus nomes referidos, enganou-se redondamente. Hoje falarei sobre economia e bem-estar social. A notícia é esta: “A Argentina passou a integrar a lista dos dez piores países do mundo para os direitos trabalhistas e sindicais, segundo o Índice Global dos Direitos elaborado pela Confederação Sindical Internacional (CSI)”. A título de comparação, o vizinho Uruguai, tem se mostrado um país seguro, institucionalmente estável e marcado pela alta qualidade de vida. Seu custo de vida alto é o reflexo da sua limitada economia doméstica, dado que sua população é pouco numerosa, o que impacta diretamente o consumo. A Argentina chegou aonde chegou, o fundo do poço, por conta das políticas de Javier Milei. Ele cumpriu o que prometeu em campanha, e desmantelou o funcionalismo público. O que as pessoas insistem em não reconhecer, é que ele não fez isso para equilibrar as contas estatais, mas para enfraquecer o Estado. Um Estado forte gera lideranças estatais fortes. Então a burguesia sente a necessidade de quebrar o Estado, para que o poder público se dilua, e o poder em geral se concentre nas mãos de pessoas físicas ou nas mãos de grupos particulares. Os patrocinadores de campanha querem ter o monopólio do poder. Milei não governa a Argentina para os argentinos, mas para os seus patrocinadores. Esta, aliás, é a marca da direita. Nos últimos dias, o presidente norte-americano, Donald Trump, deixou escapar que não governa os Estados Unidos da América para os norte-americanos, mas para o grupo de que faz parte. Já a condição do Uruguai é reflexo de governos conduzidos por mandatários de esquerda, entre os quais o mais notório seria José Mujica, falecido não faz muito tempo. Falem o que quiser da esquerda, mas os esquerdistas são nacionalistas. Eles governam para o povo, e não às expensas do povo. Os socialistas são democratas. Um panorama de desenvolvimento tecnológico e econômico se liga a um Estado forte, bem organizado, e garante (substantivo, leia-se, “garantidor”) das liberdades civis. Políticos como Milei são infiltrados nas políticas de seu país, a mando de países centrais, quando não exatamente ou somente a mando dos Estados Unidos da América, com o objetivo de fazer valer os interesses centrais ou norte-americanos. São traidores da Pátria por antonomásia. A esquerda é o exato oposto: ela defende, promove e procura fazer cumprir o dispositivo constitucional que vela pela (nossa) soberania nacional. Quando, por exemplo, o Brasil oferece suporte a um país em crise, não está se vendendo para esse país, mas adimplindo o ideal jurídico de solidariedade entre os povos. A mídia dos países centrais difunde a ideia de que o capitalismo é uma panaceia em termos de funcionalidade social, ao passo que o socialismo seria uma praga capaz de destruir toda e qualquer sociedade. Convido o amável leitor a estudar um pouco de história, a fim de ver que o socialismo sempre foi implantado em sociedades caóticas e, sendo assim, naquele contexto e momento, o socialismo era a melhor alternativa possível. Não vislumbro, hoje, uma revolução armada, para entronizar no poder do Estado, uma ditadura do proletariado. Vejo toda a literatura crítica, produzida pelas mentes mais possantes da academia, como um conjunto de fórmulas digno de ingressar na elaboração das políticas públicas sociais. Ainda que estejamos em regimes capitalistas, a maior lição e contribuição da esquerda é esta: o coletivo deve ser o norte, o referente do pensar e fazer políticos. O resultado da extrema direita argentina aí está: uma nação em crise e decadente. Por outro lado, o Uruguai mais parece um país europeu dentro do cenário latino-americano. Nosso vizinho austral ousou ser governado por pessoas que priorizam pessoas. O próprio Cristo o disse: “Pelos frutos reconhecereis a árvore”. Enquanto nos Estados Unidos da América emergem escândalos e mais escândalos envolvendo o nome do chefe do Executivo Federal, a todo momento são trazidos a público documentos sobre OVNIs. Em outros países, alguns deles aqui na América do Sul, estão a aprovar “reformas trabalhistas” para desfalcar os trabalhadores de seus direitos, e a mídia televisiva divulga a informação no formato de uma pílula, ou seja, num lapso de velozes escassos segundos do cronômetro, como se tratássemos do assunto mais desimportante e fútil possível. A menção epigráfica é precedida e sucedida por fatos noticiosos engraçados ou de entretenimento, a ponto de parecer hiperdivertido perder garantias legais conquistadas a preço de sangue, pela perseverança organizada ao longo de décadas. A política da direita promete agir em nome da modernização, da eficiência, da desburocratização. Onde entra o ser humano nisso? Não entra! Falar de ser humano é um assunto obsoleto e careta, uma insignificância de que se ocupam apenas os jurássicos de esquerda!

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