Alesc: registros de violência contra a mulher expõem uma tragédia cotidiana
São 98 casos por dia em Santa Catarina, segundo a Assembleia Legislativa
Histórias interrompidas, vozes caladas e famílias devastadas. Em Santa Catarina, a violência contra a mulher deixou de ser um dado estatístico distante para se tornar um retrato doloroso e repetitivo da realidade. Por trás de cada número, existe uma vida, uma trajetória e um pedido de socorro que, muitas vezes, não chegou a tempo. “Por favor, eu tô pedindo... você quer que eu me ajoelhe? Eu tenho um filho...”.
Frases como essas, ditas por Priscila Dolla, instantes antes de ser morta pelo namorado, nesta semana, em Rio Negrinho, passam a se repetir na voz de tantas mulheres – e de tantas outras que sequer têm tempo de dizer algo.
De acordo com dados do Observatório da Violência Contra a Mulher, da Assembleia Legislativa, entre 2020 e 2025 foram registrados 445.225 crimes de violência contra a mulher no estado, o que representa, em média, 198,5 casos por dia, ou mais de oito por hora. A idade média das vítimas gira em torno dos 36 anos.
O Observatório foi implantado em 2021 com o objetivo de compilar dados, analisar a violência, subsidiar a formulação de políticas públicas e criar uma base unificada para monitorar a violência contra a mulher no Estado.
OVM/SC
O Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC) é uma iniciativa que reúne e organiza informações sobre violência de gênero no Estado, oferecendo dados e conteúdos para análise, acompanhamento e qualificação de ações públicas.
O OVM/SC disponibiliza indicadores, publicações e recursos de consulta para apoiar o monitoramento do cenário de violência contra a mulher. O objetivo é facilitar o acesso a informações consolidadas, com recortes e séries históricas, para acompanhamento contínuo.
Quem participa
O Observatório atua de forma articulada com diferentes instituições e órgãos que produzem ou utilizam dados e informações relacionadas ao tema, contribuindo para uma visão integrada e para o fortalecimento das redes de proteção e enfrentamento.
Ao ampliar a transparência e a leitura qualificada dos dados, o OVM/SC contribui para subsidiar políticas públicas, orientar debates, apoiar pesquisas e fortalecer estratégias de prevenção e atendimento.
Os números e análises podem variar conforme o tipo de dado (por exemplo, registros administrativos e informações judiciais), os recortes (ano, município, tipo de ocorrência) e a periodicidade de atualização das bases utilizadas.
Os relatórios, publicações e o painel de indicadores estão disponíveis no portal oficial: ovm.alesc.sc.gov.br
A emergência social
A coordenadora do Observatório da Violência Contra a Mulher da Alesc, deputada Luciane Carminatti (PT), alerta para a dimensão humana por trás dos números. “Quando olhamos para esses dados, não podemos enxergar apenas estatísticas. Cada registro representa uma mulher que sentiu medo dentro da própria casa. Não podemos naturalizar quase 200 casos por dia. Não é normal. É uma emergência social”.
Carminatti ainda enfatiza que o ciclo da violência mantém um padrão. “Na maioria dos casos, o agressor é alguém de dentro de casa: companheiro, ex-companheiro, namorado ou marido. A violência não surge de repente. Ela começa no controle, na humilhação, na ameaça, na ideia de posse. É fruto de uma cultura machista que naturaliza o poder do homem sobre a vida da mulher”.
Falhas na proteção
A deputada também alerta para um dado preocupante. “Quando a mulher decide romper o silêncio e pedir ajuda, o Estado precisa estar presente e ativo, mas ainda temos muitas falhas. Santa Catarina é o 2º estado do Brasil com maior taxa de descumprimento de medidas protetivas: uma em cada quatro ordens judiciais é desrespeitada. Medida que não é fiscalizada não protege ninguém.”
Na sessão ordinária da última quarta-feira (18), a deputada Paulinha (Podemos) lamentou o caso recente de feminicídio registrado no Planalto Norte. Ela ressaltou que os dados apontam que a violência contra a mulher não começa com o homicídio, mas sim com as ameaças, que lideram os registros, com mais de 205 mil casos nos últimos cinco anos.
Ações reais
“Está mais do que na hora de transformarmos essa indignação em ações reais que evitem que essa verdadeira epidemia de violência contra a mulher continue. O ciclo que muitas vezes termina em morte se inicia na violência psicológica, na agressão física ignorada. Por isso, precisamos propor a construção de um novo protocolo de ação no Estado”, afirmou a deputada Paulinha.
Entre 2020 e 2025, 329 mulheres foram assassinadas. Em grande parte dos casos, o agressor já fazia parte da vida da vítima: esposos, companheiros, ex-companheiros ou namorados. Outro indicador alarmante é o silêncio que antecede a tragédia: 85,7% das vítimas de feminicídio não tinham boletim de ocorrência contra o autor.
Padrão de reincidência
Por outro lado, 71,4% dos agressores já possuíam algum registro policial, evidenciando um padrão de reincidência e risco previsível. Em 2026, considerando os dados parciais do ano, já foram registrados 6.983 casos de violência contra a mulher, 3.107 ocorrências de ameaça e 1.759 de lesão corporal.
Cinco feminicídios já foram contabilizados e, em 80% deles, não havia registro prévio da vítima contra o autor – um retrato doloroso da subnotificação e do medo que ainda silencia mulheres. Até a data desta publicação, quatro mortes de mulheres foram registradas apenas no mês de fevereiro.
Crescimento dos registros
Informações do Observatório revelam ainda uma curva preocupante de crescimento dos registros ao longo dos últimos anos. Em 2020, foram 64.007 ocorrências. Em 2021, o número saltou para 70.191. Em 2022, chegou a 72.047. Em 2023, atingiu 77.949 registros. O patamar segue elevado, consolidando um cenário de violência persistente e estrutural.
O Ministério Público de Contas de Santa Catarina também reforça que o enfrentamento à violência de gênero exige vigilância permanente. “A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural. Nenhuma mulher deve viver sob ameaça e o direito a uma vida digna é inegociável”, afirmou a procuradora-geral Cibelly Farias.
Justiça e Acolhimento
A defensora pública e coordenadora do comitê gestor do OVM/SC, Anne Teive Aura, ressalta o papel do acesso à justiça. “Muitas vezes, esse silêncio está relacionado ao medo ou ao desconhecimento sobre seus direitos. É importante saber que existem instrumentos legais, como as medidas protetivas de urgência. A Defensoria Pública é um dos espaços de acolhimento gratuito.”
Os números das medidas protetivas reforçam o tamanho da urgência: somente em 2025, Santa Catarina registrou 31.655 medidas protetivas requeridas. Em janeiro de 2026, já foram 3.223 pedidos. Em 2020, foram 16.257 medidas requeridas; em 2023, avançou para 28.167; e em 2024, alcançou 30.234.
O crescimento contínuo indica não apenas a dimensão da violência, mas também maior conscientização e fortalecimento das redes de proteção, que encorajam mulheres a romper o silêncio antes que a violência escale.
Canais
-Em caso de emergência, ligue 190.
-Para denúncias anônimas, disque 181.
Contatos
Além do registro de ocorrência nas Delegacias de Polícia, a Polícia Civil disponibiliza o registro de ocorrência virtual e um canal de denúncia pelo WhatsApp (48) 98844-0083. No site do Observatório da Violência contra a Mulher, estão listadas as unidades de saúde, CREAS, Defensoria Pública e Procuradorias da Mulher em cada município catarinense.
Foto Rodrigo Corrêa/Agência AL



