Tarcísio de Freitas e a educação do Estado de São Paulo
Reflexão sobre possíveis desdobramentos de uma experiência-piloto na área educacional
Notícia, de 07 de fevereiro de 2026, informa que o governo do ex-militar, Tarcísio Freitas, separará alunos de acordo com o padrão de rendimento escolar. Pais, alunos e professores, foram pegos de surpresa, eis que não foram avisados com nenhuma anterioridade. A medida não abarca toda a rede. Em princípio, a medida valerá para alunos do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental, de 147 unidades da rede estadual. O experimento foi nominado como “Projeto Voar”. Atualmente, o secretário estadual de educação paulista vem a ser Renato Feder. Caso a iniciativa dê com os burros n’água, ela será encerrada em 2027. De cara, o que salta aos olhos é a concretização de um viés de estigmatização. Os agregados pelo parâmetro do menor rendimento, por exemplo, serão malvistos, inicialmente pelos outros, e, com o tempo, por si próprios. É uma pancada na autoestima. Por outro lado, quem sabe, para soerguer-se e sair da má classificação, o estudante poderá passar a se empenhar para ser promovido. Não é de duvidar, outrossim, que a estratificação dentro de uma mesma série, desafie a todos, no sentido de visar a pertencer à classe A. A proposta do governo carrega consigo o mérito de emparelhar os cavalos de uma quadriga. A ministração do mesmo conteúdo, pelo mesmo método, pode ser acelerada demais para alguns e morosa demais para outros. Trabalhar com uma turma mais homogênea facilita a vida do professor, adequa a oferta do serviço, o ensinar e o educar, ao perfil do destinatário, o aluno. É preciso gizar que a verificação de oscilação no rendimento escolar não espelha apenas o nível de QI dos estudantes, o que se vincula à genética – e, portanto, não poderia ser mudado – mas à disciplina, ao propósito de comprometer-se com os programas de estudos, à clareza da relevância do que se faz no templo do saber. Não é justo que o aluno desinteressado trave ou lentifique o processo de aprendizagem daqueles mais espertos, que já despertaram para a vida, e para tudo o que concorre para seu êxito. A diferenciação dentro de uma mesma série pode acarretar prejuízos à socialização. Sim, isto é verdade. O pessoal da arquitetura, da engenharia e do urbanismo, percebeu que, em pensando-se no contexto da cidade, é desejável que um mesmo espaço seja integrado por várias dimensões, como a comercial, a turística, a histórica, a comunitária, e que haja uma mistura de classes sociais. A segregação é altamente negativa. A engenharia física entrelaça-se com a engenharia social. Esse princípio, por suposto, estaria sendo transgredido pela inovação aludida. Bem, quem sabe, uma maneira de contornar este inconveniente, seria mesclando os alunos em atividades como educação física, dança, momento de convivência nos intervalos, aproveitando outros momentos que não exatamente o de apresentação de conteúdos. Outra grande verdade, é que a sociedade carece de profissionais dotados de um maior nível de perícia. Qualquer que seja a área de atuação de um profissional, às vezes, do que se precisa, é de um profissional detentor de uma expertise extraordinária. O Brasil é o país com o maior número de advogados. Contudo, quantos possuem proficiência, para representar políticos e empresários de prestígio, em ações que tramitam perante Tribunais Superiores? Não serão os medianos que desenvolverão a ciência, a tecnologia e a inovação nesse país chamado Brasil. Quem tem adesão ao escopo das atividades, que são desenvolvidas em um determinado ambiente, é credor de melhores condições de realizabilidade, do que aqueloutro que ali permanece por falta de opção, simplesmente. A medida é reversível. Vejamos como tudo será conduzido e quais serão seus resultados. Se a conjectura converter-se em modelo promissório, creio que seria o caso de acatarmos algo parecido e replicar em nossa realidade local/regional. Não se trata de criar “duas escolas públicas”, mas de reconhecer que algumas diferenças são ínsitas aos indivíduos, e que não há socialismo ou outra ideologia capaz de anular estes distintivos. Mesmo em sociedades socialistas, e a China é o melhor exemplo atual disso, vemos centros educacionais de excelência, vemos alunos e acadêmicos alçando voo por serem quem são. O país deve ofertar direitos humanos a todos, dentro do que, acha-se a educação. Certos indivíduos, no entanto, exibem maior capacidade de receber do que outros. E aposta-se que, no futuro, poderão ofertar mais (à sociedade). São Paulo é, talvez, o melhor laboratório do Brasil em educação. Um espaço de alta densidade demográfica e constituído por atores sociais variegados e heterogêneos. Penso que devamos apostar em diferentes modelos de educação, na medida em que cada padrão consegue encontrar o seu próprio público. Que haja escolas militares, católicas, evangélicas, seculares, de direita, de esquerda, enfim.



