Jornal Liberdade
A serventia do futebol: reflexões para 2026

A serventia do futebol: reflexões para 2026

As muitas faces de um poliedro. Futebol para quem? Para quê?

Cléverson Israel Minikovsky
01 de junho de 2026
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Ao que me lembro, sempre que é copa mundial de futebol, e trata-se de uma partida em que atuará a seleção brasileira, o comércio, e as empresas em geral, fecham as portas, tornamo-nos todos telespectadores atentos. Isso, primo ictu oculi, parece afrontar a lógica da economia capitalista. Sem trabalho, não há produção de riqueza. Lado outro, as partidas são um espetáculo onde se exibem não só os talentos futebolísticos, senão ainda o nome das grandes marcas mundiais, que funcionam como patrocinadoras. Nenhum outro interesse, liga-se ao esporte referido, que diferencie-se do monetário, a menos que consideremos outro âmbito de atividade humana tão concorrido quanto o econômico, para ser bem direto, o político. Não raro, presidentes de clubes fazem alianças com políticos, cujo resultado vem a ser a permuta entre voto na urna e recurso estatal para os times. Todavia, a questão eleitoreira não é a única de viés político. A identificação do Brasil como o país do futebol, remete-nos à era varguista. Getúlio Vargas percebeu a necessidade de fazer com que todos os brasileiros se sentissem parte de um mesmo ideal, que houvesse entre todos os patriotas, do extremo sul ao extremo norte, uma identidade comum e compartilhada. O futebol foi uma tradição inventada – aliás, toda tradição é, em algum momento, inventada – com o intuito de ingressar na cultura brasileira como aquilo que nos une. É pelo futebol que nos tornamos membros de uma mesma nação, por ele nos sobrevém a sensação de patriotismo. Eu não me oponho a uma boa performance da nossa seleção nos jogos da copa. No entanto, precisamos performar bem em outras áreas, mais relevantes que o futebol. Por que, em vez de sermos “a pátria das chuteiras” não nos tornamos em “a pátria do trabalho” ou em “a pátria do estudo, da ciência, da tecnologia, da inovação”? Em A Rebelião das Massas, José Ortega y Gasset nos desperta para aquilo que tem o poder de nos converter em homem-massa. E o futebol está cabido dentro disso. Na arquibancada, ou em frente a tela da televisão, do monitor, ou o que o valha, somos todos “homens medíocres”, para usar um conceito caro a José Ingenieros. Devo admitir que o futebol é um fenômeno palatável a públicos variados. Desde o pobre ao rico, desde o ignorante ao letrado. Para o ignorante, é quase uma religião, para o culto, palco de estratégias. O homem de estudo e erudição tende a assemelhar-se mais com a figura do técnico da seleção. Embora, jocosamente, diga-se que, em tempos de copa, a seleção brasileira tem mais de duzentos milhões de técnicos. Independente de qual seja o resultado final da copa, o Brasil já venceu a copa mais importante, somos um país pacífico, e que, para além da não agressão, promove o combate à fome no interior do seu território. Convém reparar que, países como Estados Unidos da América, Rússia, China, Japão, os que mais se sobressaem no cenário internacional, não se notabilizam no futebol. O mundo preocupa-se com petróleo, terras raras, inteligência artificial, inovação e tecnologia, e não com futebol. Dando uma guinada de cento e oitenta graus, o esporte, em geral, pode ser a área de atuação em vislumbre, para os sujeitos periféricos. Isto posto, é consabido, por exemplo, que a modalidade esportiva predominante nos Estados Unidos da América é o basquete, assim como no Brasil é o futebol. Em qualquer terreno baldio de favela cabe uma partida de futebol. Então a vida impõe uma escolha, o caminho do esporte, ou o caminho das drogas e da criminalidade. Quem escolher bem, perseverar e tiver talento, receberá o prêmio cabível aos tais. É assim que o futebol, um negócio comandado por empresários de papéis, direcionado para lavagem de dinheiro, recorrentemente manchado pela mácula da corrupção, também é o esporte da figura geométrica perfeita, eis que a bola é uma esfera, algo simples e universal, capaz de conectar todos os povos, todos os terráqueos. Haja vista que os estadunidenses estão implicados em todas as guerras e conflitos bélicos do planeta, que o papa de agora é ianque, e que sediarão alguns dos jogos da copa, ao lado de Canadá e México, pode-se dizer que, de um modo ou de outro, eles continuam relevantes. A estrutura construída para esse tipo de evento é o que costuma ficar, passando o que é passageiro; mas, afora o México, o fato é que Canadá e Estados Unidos da América, já são países ricos, que contam com boas infraestruturas. Por semanas, a copa será a distração global que os governos, pela mídia, explorarão ao máximo, para desviar a atenção do eleitor-administrado para assuntos alheios àqueles de real interesse à sociedade. O resultado da copa definirá muitas eleições, de muitos países. Esse é o termômetro da fragilidade de nossas democracias, o reflexo do caráter nefelibático de nossas pobres consciências.

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