A Arte de Envelhecer
Uma reflexão sobre a relação entre arte e envelhecimento
Num dia destes, eu estava navegando no meu celular, com o objetivo de descansar a cabeça por meio da distração, e me deparei com uma chamada neste formato: “veja quantos artistas longevos viveram o auge da televisão e do cinema, e ainda estão vivos”. Antes de entrar diretamente no assunto, pontuo que, não raro, também encontramos na internet notícias assim intituladas: “veja ex-artistas trabalhando em empregos comuns”, ou até mesmo em situação de rua. Ou seja, há quem esbanje dinheiro na época das vacas gordas. Em todas as atividades humanas há pessoas de diferentes perfis. Agora, volto aos “artistas longevos”. Eu fui olhando um a um, e a relação incluía artistas nacionais e estrangeiros, e, em que pese estar compulsando a barra de rolagem por intermináveis minutos, a galeria parecia não ter fim. Então passei a considerar que a classe artística pode estar mais propensa à longevidade do que indivíduos que se dedicam a outras atividades profissionais. Charles Darwin disse que “o que sobrevive não é o mais forte, nem o mais rápido, mas o que melhor responde à mudança, o que mais se adapta”. Por conseguinte, envelhecer passa por isto. Somos desafiados a abandonar alguns papéis e assumir outros. Tal como protagonizar diferentes personagens, no teatro, na telenovela, ou no cinematógrafo. Alguns de nós morrem não por estarem doentes, mas por estarem despreparados para estender os dias de sua existência com propósito e sentido. Inculcaram-nos a ideia de que a vida é curta. Como afirmou o escritor Michael Clinton “não nos preparamos física e mentalmente para viver vidas longas”. A carreira artística consiste no desafio de dar som, imagem e movimento, a diferentes perfis de seres humanos, ainda que os representados não passem de uma ideia, de uma enteléquia. Gradativamente, vemos bocados do mundo que nos rodeia entrarem em obsolescência, e nós mesmos devemos fazer força para não sermos puxados pelo mesmo movimento. Quem trabalhou décadas numa empresa, e é surpreendido pela aposentadoria, sente-se avulso e perdido dentro da própria casa. Falta-lhe criatividade para ocupar-se de outro modo, que não aquele que foi o de sempre. Digo que envelhecer é “uma arte”, ciente de que ninguém precisa fazer força para envelhecer, é algo espontâneo e involuntário, mas passar por esse processo sem perder de vista o seu significado, isto sim é digno de ser nominado como “sabedoria”. Ser flexível, ao invés de querer impor unilateralmente um padrão de comportamento e relacionamento, é o segredo de uma vida longa e pacífica. O mundo não vai mudar para satisfazer nossas expectativas, somos nós quem temos de mudar. Quem tem a pretensão de ser líder, guarde esta lição, pois em diferentes momentos, em diferentes contextos, o entendimento do que vem a ser um líder muda, é um conceito fluido. Devemos estar atentos para o que a realidade está demandando, qual é a carência e o suposto perfil que teria o condão de preencher uma dada lacuna. Confúcio teria dito que, na velhice, tiram-nos do palco, mas nos colocam na primeira fileira de cadeiras. Portanto, perderíamos o protagonismo, a função mais importante, a executiva ou operacional, mas, por outro lado, seríamos premiados por estarmos numa posição de privilegiada observação, com tempo para refletir sobre como se desdobra a vida do ser humano no mundo, isto é, gozando da condição de meditante. O trabalho tem uma relevância magna e indiscutível em nossa vida. É pela atividade profissional que obtemos o nosso sustento, por ela construímos nossa casa, compramos nosso carro, pagamos os estudos de nossos filhos, ficamos notórios em um ofício, montamos uma carteira de relações sociais ou stakeholders. Não obstante, existe vida e capital simbólico fora da arena do mercado de trabalho. É possível manter-se relevante fora da empresa, mas devemos estar preparados para uma nova visão, uma nova missão, para novos objetivos. Sem assujeitamento a um novo projeto de vida, estamos fadados ao perecimento. Pessoas adultas e idosas são mais apegadas às suas próprias ideias e concepções, denotam hábitos rígidos, justamente quando o mecanismo de passe é a relatividade e a conformidade a novos leiautes. No palco da vida, não há ensaio. Nasce-se já protagonizando. O melhor é aceitar cordatamente a função de menestrel, consolados pelo fato de que, com muito esforço, poderemos direcionar o roteiro, e causar o desfecho. Logo, não é sobre como começa, mas sobre como termina. Ao fim e ao cabo, envelhecer bem, consiste na predisposição de assumir novos personagens, dando-lhes alma e carisma. Sentido não é algo que se procura ou encontra, é algo que se cria, que se produz. Existir é basicamente isto. Apropriar-se dessa verdade é encher-se de luz!
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