Página Inicial | Colunistas | Eugenia comunista?

Eugenia comunista?

Somos plantel passível de ser melhorado?

Por Cleverson Israel 17 min de leitura

A extrema direita defende a superioridade de determinadas raças. Hoje, até o conceito de raça é algo problemático, senão impreciso e inútil. Hitler não aceitava asiáticos, negros, judeus, ciganos, e outros grupos étnicos. O socialismo científico pressupunha a tese oposta, a de que é a experiência social do ser humano quem define seu status. O fator genético ou biológico não seria o mais importante. Platão, em A República, defendia que o direito de reproduzir-se deveria ser prerrogativa de pessoas saudáveis, fortes, inteligentes, belas e talentosas. E as crianças deveriam ser educadas pelo Estado e não pela família. Paradoxalmente, Platão era, a um só tempo, comunista e eugenista, coisa que o tempo atual não comporta mais. Aristóteles tinha um pensamento parecido, embora não tão radical. Ademais, Aristóteles é conhecido por difundir a noção de que é o hábito que edifica o caráter e o ser humano como um todo. O direito internacional reconhece, a todos, os direitos reprodutivos. Argumentos científicos ou pseudocientíficos de melhoria genética são tidos como antiéticos. Embora o resultado esperado da eugenia repouse em um axioma aparentemente lógico, a experiência tem demonstrado a não funcionalidade desta mentalidade. O jurista italiano Lombroso, famoso e admirado em sua época, tempos depois foi banido do espaço acadêmico. Ele insistia na ideia de que a criminalidade era protagonizada por pessoas de má constituição corporal. É relativamente velha a fantasia de que poderíamos criar seres humanos superiores pela reprogramação genética. Essa utopia era corrente em mídias de ficção científica. Sem embargo, o que era apenas um sonho, presentemente é uma factibilidade. Um cachalote pode viver por duzentos anos, porque sua genética permite ao seu organismo corrigir as células defeituosas, o que, em regra, chamamos de “envelhecimento”. Sendo reproduzível em humanos esse mecanismo biológico, vislumbraríamos mais do que a duplicação do número de dias de nossas vidas. Os cientistas descobriram, por exemplo, que o sistema imunológico do tubarão é um dos mais eficientes, porque os anticorpos deste animal são incrivelmente pequenos. E mediante uso de inteligência artificial foi possível produzir anticorpos sintéticos quarenta vezes menor do que aqueles atualmente empregados em quimioterapia. É a imunidade do organismo que o protege de agentes externos, como bactérias, vírus, fungos, mas também de células de má formação. É nesse contexto que a China pretende formar um exército de padrão global até 2049. A ideia seria pôr em série supersoldados. Por intervenção genética os tais soldados sujeitos a melhorias apresentariam capacidades ampliadas para o combate, o que inclui: resistência à radiação (em havendo uso de armas nucleares), adaptação a temperaturas extremas, maior força física, maior velocidade, maior estatura e capacidade cognitiva ampliada. A empresa que operacionalizaria o procedimento seria a BGI Genomics. Esta informação tem como procedência, supostamente, relatórios oficiais dos Estados Unidos da América. Há toda uma discussão ética a respeito do assunto. Mais que isso, há uma discussão teológica. Estaríamos querendo melhorar algo que foi feito por Deus, justamente Ele que, por definição, não pode ser superado. Deus teria um propósito para nos fazer do jeito que somos, ao invés de nos ter feito de um modo mais pleno de poderes. Enquanto nós, ocidentais, discutimos se eugenia pode ou não ser feita, os chineses simplesmente estão fazendo. Na Bíblia encontramos textos que proíbem que se misturem plantas ou animais de espécies diferentes (hibridismo). Conferir Levítico 19, 19. Por outro lado, Jacó usava de artimanhas para fazer com que os rebanhos sob seus cuidados se fizessem acompanhar de determinados caracteres propositalmente perseguidos, queira ver Gênesis 30, 33-40. A ideia de que a criação é obra do Deus Artista, e, por corolário, intocável, não se sustém. Desde que estamos neste planeta, cometemos ingerências antrópicas. Não é só o meio que nos rodeia que resta afetado, nós nos afetamos a nós próprios. Fosse um pecado prolongar a própria vida, seríamos os maiores dos pecadores, com a invenção de vacinas, remédios, terapias, procedimentos vários. A nossa expectativa de vida já dobrou em poucas décadas. Por que não poderíamos colocar em marcha o mesmo intento por mais de uma vez? Se há algum risco na empreitada genética chinesa, o que vejo é isso: assim como houve e há uma corrida armamentista, é possível que haja uma corrida genética. Aprimoramos tecnologias, materiais, processos, estruturas, potencializamos capacidade e aproveitamento, e agora é chegada a hora de fazer pressão sobre aquela espécie única que produziu tudo isto. Luz? Só o tempo dirá!