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Cadê as crianças?

Aprendendo com o exemplo alheio!

Por Cleverson Israel 17 min de leitura

Quem não ouviu aquela declaração “Natal só tem graça se tiver criança!”? Às vésperas de um novo ano letivo, época em que as famílias costumam realizar as matrículas escolares de seus filhos, o periódico argentino La Nación informa que algumas unidades escolares públicas serão fechadas por falta de alunos. Esse fenômeno principiou nas escolas particulares, e agora atinge os espaços educacionais públicos. Esse retrocesso numérico espelha a queda da natalidade. Cidadãos conservadores responsabilizam a liberalização do aborto, o feminismo, e outras pautas do esquerdismo como fatores vinculantes. Seja como for, o fato é que o capitalismo também guarda relação com o que está a ocorrer. As exigências do mercado de trabalho não são compatíveis com a quantidade de tempo privado que uma família requer. Não raro, a pessoa precisa de dois empregos para cobrir seus compromissos financeiros, ou quando tem um vínculo empregatício só, costumeiramente realiza horas extraordinárias. Nem sempre se paga mal. O custo de vida que é muito elevado. Qualquer que seja o futuro político da Argentina e de outros países da América Latina, o que inclui o Brasil, não é boa coisa avizinhar-se carestia de força de trabalho. Sem ela, nenhuma economia prospera. Em situações como esta, verifica-se falta de candidatos a empregos, e um achatamento no consumo, o que, no mínimo, duplica o agravo econômico. Levando-se a sério o discurso de Milei, o que considero impossível para um ser humano adulto e sadio, essa notícia deveria ser bem recebida. O que importa não é apenas diminuir o funcionalismo? Menos alunos, menos escolas, menos professores! Resolveu alguma coisa? Não! Absolutamente nada! Foi aberto um problema novo: há um discente desempregado, ele é o alicerce econômico de sua família, está a passar por crise severa, achando-se em insegurança alimentar. Ele já não frequenta o mercado onde realizava seu pedido, que também ficou sem vender o costumeiro lote mensal. Austeridade fiscal combinada com queda na natalidade é o verdadeiro ocaso de uma civilização. Pobres argentinos, ontem tão ricos e promissores! Gestão pública não passa apenas por administrar números e valores, passa, em primeiro lugar, por administrar indivíduos e famílias. O governo argentino contrai empréstimos de organismos internacionais, esquecendo-se do óbvio, da capacidade de pagamento do país. Como a sociedade vai rolar essa dívida, se a perspectiva é que haja uma retração no número de pagantes? Assumir um compromisso de longo prazo, tendo como referência o aqui e agora, sem ponderar a sustentabilidade da relação econômica que se transmite às futuras gerações, é ilogicidade gritante! Essas espécies de decisões políticas mostram o que Milei é, e o que ele não é: ele é um oportunista, que vê o Executivo Federal como um ambiente em que, num curto espaço de tempo, assiste-se à dança das cadeiras; ele não é um estadista, pois um estadista necessariamente há de contemplar alternativas sempre segundo larga escala de tempo. Reconheçamos: a queda na natalidade afeta a maioria dos países do mundo, excetuando-se a África, Índia e outras potências regionais, de forma que não é possível atrelar essa tendência a um fator encadeante prioritário, seja ele, o modelo político, econômico, cultural, etc. Se não nascem crianças, e agora já falo do panorama brasileiro, diminuirá o número de famílias contempladas com os benefícios federais de transferência de renda. Isso impacta diretamente o desenvolvimento uniforme do território nacional, na medida em que os agentes econômicos desenvolvedores de uma região carecem de indivíduos que lhes façam a vez de demandantes de produtos e serviços. Seria extremamente oportuno, que os beneficiários não se contentassem, exclusivamente, com a ajuda governamental estatal. Um dos problemas do Brasil de hoje é o contingente dos nem-nem, aqueles que nem estudam e nem trabalham. No passado, não no faziam por falta de chances, e, hoje, não no fazem por nunca terem feito, por estarem repousando em inércia. Países vizinhos, desafios diferentes. Creio, entrementes, que é mais fácil administrar pessoas, ainda que elas sejam problemáticas, do que administrar a falta de recursos humanos. Progredimos, no Brasil, na universalização da educação básica, e dobramos o número de vagas nas universidades. O desafio, agora, é elevar a qualidade do ensino em todos os níveis, e fazer com que todo diplomado, efetivamente, torne-se um profissional empregado e dinamizador da economia do país. Mas, se a porta de entrada de um sistema é estreita, como pretender aumentar o volume, na saída, de cabeças de obra? Pensar e resolver estes desafios é sinônimo de luz!

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