Campanha da Alesc reforça a importância do “Janeiro Branco”
Lema é “Quem cuida da mente, cuida da vida!
Por Da Redação 25 min de leitura
Santa Catarina registra índices de suicídio acima da média nacional, especialmente entre jovens e homens adultos
Desde 2017, a Alesc deu um passo importante na valorização da saúde mental como política pública, com a instituição da Campanha Janeiro Branco. De autoria do deputado Neodi Saretta (PT), a Lei 17.330, de 20 de novembro de 2017 (posteriormente revogada e incluída na Lei 18.531/2022), atualizou e ampliou diretrizes sobre o tema, mas seu legado permanece atual e necessário.
Sob o lema “Quem cuida da mente, cuida da vida!”, a iniciativa ajuda a romper silêncios, estimular o diálogo e trazer à luz um tema que, por muito tempo, foi tratado com tabu e invisibilidade. Falar de saúde mental é falar de vidas reais, de histórias interrompidas e de sofrimentos que muitas vezes não aparecem.
Urgência do debate
Em Santa Catarina, os dados reforçam a urgência do debate. Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Estado registra índices de suicídio acima da média nacional, especialmente entre jovens e homens adultos.
Em alguns anos recentes, Santa Catarina figurou entre os estados com maiores taxas proporcionais de mortes autoprovocadas, um dado que escancara a necessidade de prevenção, acolhimento e políticas permanentes de cuidado psicológico.
A campanha nasceu justamente para provocar reflexão logo no início do ano, quando tradicionalmente se fala em recomeço e novos planos. A proposta é simples e profunda: olhar para dentro, reconhecer fragilidades, buscar ajuda e compreender que saúde mental é tão essencial quanto a saúde física. Ansiedade, depressão, estresse crônico e burnout não são sinais de fraquezas, são alertas de que algo precisa de atenção.
“Eu estava mergulhada na organização de um evento e chegou um momento em que eu simplesmente fiquei apática. Eu desliguei de tudo, peguei meu carro e consegui chegar em casa. Lembro só de dar comida para o meu cachorro e deitar na cama. Dormi até o dia seguinte e acordei chorando. Eu estava exausta!”, relata a jornalista Magali Collonetti, que teve a Síndrome de Burnout.
“Acabei não sendo acolhida e precisei ir trabalhar naquele dia, porque o evento começava. Eu lembro que me propus não exagerar no trabalho e fazer o mínimo naquele dia. Nos dias seguintes eu continuei me cuidando porque eu pensava: tenho que me cuidar para não ter um burnout. Mas eu já estava em um”.
Esgotamento
Magali pontua que o esgotamento mental dificultava a realização de tarefas simples. “Muitas vezes eu não conseguia ficar em pé, fazia o mínimo de esforço e até tomar banho ficou difícil. Eu não tinha forças para falar com as pessoas, de caminhar com meu cachorro e até era difícil cozinhar. Realmente foi algo que eu nunca senti na vida”, diz.
“Eu lembro como fiquei feliz ao conseguir viajar com algumas amigas e não cansar. Também lembro como eu comemorei quando consegui fazer duas coisas ao mesmo tempo. Eu sempre fui muito ágil, mas eu não conseguia fazer nada mais como era antes”.
Ações educativas
Em Santa Catarina, ao longo dos anos, o Janeiro Branco impulsionou ações educativas, rodas de conversa, palestras, campanhas em escolas, universidades, unidades de saúde, empresas e órgãos públicos. Para o médico psiquiatra da Alesc, Marcelo Coltro, ainda existe um tabu na busca por ajuda.
“Hoje em dia é muito comum as pessoas apresentarem uma rotina de trabalho excessiva, com uma vida onde as coisas acontecem com muita rapidez e o esgotamento mental está cada vez acometendo mais pessoas. Mas ainda existe muito tabu. Observamos isso na prática clínica. É muito comum as pessoas ficarem muito tempo com sofrimento mental, com problemas pessoais sem procurar ajuda”, salienta.
“E esses problemas, muitas vezes, vão interferir na qualidade de vida da pessoa, vão interferir no trabalho, na vida familiar, nas relações pessoais. Muitas vezes até levando as pessoas a terem ideias que não são ideias habituais, de desvalorização pessoal, desvalorização até da própria vida. Então, é importante que tenhamos campanhas que possam trazer para as pessoas orientações a respeito do quão é importante a gente não separar o corpo da mente”, salientou.
Sinais
Coltro aponta sinais que podem ocorrer quando existe uma doença invisível. “Percebe-se alterações de comportamento e emocional. As pessoas, às vezes, no trabalho ficam tristes ou quietas, ou muitas vezes irritadas. Ou, ao contrário, pessoas se entregam demais ao trabalho, estão há bastante tempo sem dormir, apresentam sinais de exaustão”. A jornalista Magali lembra que a dedicação pelo trabalho fez com que os sinais de um esgotamento mental não fossem priorizados.
Desafios
“Eu estava determinada a fazer dar certo o que eu estava fazendo no meu trabalho, e encarei os desafios. Pensei que seriam temporários, mas a correria era o comum. Fui segurando até que meu corpo deu os sinais. Eu realmente não vi, nem quando eu tive a primeira crise”, lembra.
“Depois dela meu corpo começou a ficar doente. Era uma gripe, uma sinusite, algum problema gastrointestinal sem motivo. Eu fazia tratamento psiquiátrico, mas até o médico demorou para alertar sobre. Só depois com o laudo que eu vi como ele já desconfiava do Burnout há mais de cinco meses”, continua.
Convite ao cuidado
“Sei que nós mulheres fomos ensinadas a dar conta de muita coisa, mas isso não é o normal. Não é saudável chegar ao ponto de esquecer de si mesma. O Burnout é o resultado de uma cultura de trabalho problemática. Parar é algo privilegiado e denunciar algum comportamento dentro de uma empresa também é delicado”, enfatiza ela.
“Mas lembre-se: Burnout é considerado um acidente de trabalho e você tem muitos direitos. E se possível, mude a forma de trabalhar ou de viver. No primeiro momento você se sente como se não tivesse mais para onde ir, mas você percebe que existem caminhos”, completa.
Alimentação, exercício e sono
Boa alimentação, boas horas de sono, exercícios são dicas para uma vida e mente saudável de acordo com o psiquiatra Marcelo Coltro. “Preservar as boas relações com amigos, ter algum tipo de interação social, se envolver na vida comunitária para que a gente possa criar laços sociais. O ser humano não foi programado para viver sozinho, nós somos programados para viver em comunidade. E potencializar os nossos espaços de comunicação, de diálogo. Uma conversa pode ajudar alguém que está em sofrimento”, diz.
“E esse acolhimento pode ser um acolhimento muito simples assim, mas que fará a diferença na vida da pessoa acolhida. É importante que as pessoas saibam que existem espaços em que podem confiar nos profissionais, e possam fazer essa conexão do corpo e da mente e falar sobre os seus problemas”, prossegue.
