Jornal Liberdade
Movimento de massa

Movimento de massa

Uma reflexão sobre o efeito cardume

Cléverson Israel Minikovsky
19 de outubro de 2026
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O que a direita conseguiu fazer nos últimos tempos, de relevante, foi cativar a simpatia dos mais jovens. Todo movimento de massa prioriza a juventude. Ela é mais fanática e apaixonada. A tendência do jovem é sempre ir contra o establishment. Como nos últimos anos tivemos cinco mandatos da esquerda, com algumas interpolações, é bem verdade, quem nasceu há pouco tempo vê a esquerda como a dona do poder que precisa ser defenestrada. Apoiando uma agenda política absurda, irracional, retrógrada e inconsequente, muitos jovens, e não somente eles, buscam arrancar o Governo Federal (sobretudo), das mãos do PT, imaginando que, fazendo isto, perpetram um movimento social e político revolucionário. A antirrevolução é vista como revolucionária. Acham que o governo da esquerda é ruim, mirando para aquilo que poderia ser tido como ideal. Ocorre que, no campo da empiria, o melhor possível, até hoje, no Brasil, foi o PT. É a velha frase de Ulysses Guimarães: “Quem acha esse Congresso ruim, prepare-se para os próximos!” Os idiotas do século V antes de Cristo, em Atenas, ufanavam-se de fazer grandessíssima coisa, condenando Sócrates à ingestão de um cálice de cicuta. Em teologia existe um fenômeno academicamente denominado “teologia do domínio do mundo”. Os evangélicos experimentam essa sensação hoje. Assimilando novos não evangélicos, ao aprisco dos evangélicos, estão dominando o mundo por absorção. Esse fenômeno pode ser visto na religião e na política. Aliás, no Brasil, fica bastante patente que as duas dimensões, de partida, nascem mescladas. Salvo exceções. Quando a pessoa comum se sente a protagonista de um movimento que tem o poder de transformar o mundo, ela abraça qualquer coisa, fascismo, comunismo, islamismo, neopentecostalismo, o que vale é ser agente de mudança, ou sentir-se como tal. Em resumo, não importa para onde é direcionado o movimento, o que importa é movimentar. É uma estratégia perfeita para angariar asseclas. É um tipo de dinâmica que se reporta às camadas mais profundas do sujeito, sem que ali possa adentrar a (auto)crítica. Outra parelha conceitual é a oposição bem x mal. As pessoas de bem devem batalhar para que o mundo não seja dominado pelo mal, ou pelos maus, as pessoas que representam esse princípio abstrato. E uma das maneiras de dizer “eu sou do bem” é falando, repetidas vezes, no nome de Deus, e instilando medo nas mentes das pessoas, anunciando o caos, em eventual derrota eleitoral. Não nego que exista uma luta entre o bem e o mal. O que registro, é que, em muitas das vezes, a luta não é do bem contra o mal, mas do conhecimento contra a ignorância. Por conseguinte, fica claro porque as universidades e toda a educação são bombardeadas por políticos de direita. Dizer que a esquerda está em desvantagem em relação à direita porque esta última debruça-se sobre os problemas reais do eleitor, de cunho econômico, ao passo que a esquerda fica discursando sobre temas abstratos como democracia e soberania, é um assalto à consciência. Se a maior parte das pessoas não conta com redes neurais desenvolvidas o bastante para traçar relação entre, democracia e soberania, de um lado, e poder de compra salarial e oportunidades de negócio, do outro, então, realmente, passados quinhentos anos, não fomos capazes de desenvolver uma consciência cidadã. Deixemos de criticar os novos recursos humanos, vocalizando falta de pontualidade, falta de engajamento, baixo nível de resistência a críticas e a estresse, pouco senso de iniciativa, e coisas do tipo. As novas gerações estão trazendo a mudança, isto é inegável, os jovens estão a fazer aquela pequena diferença na balança, que faz um prato abaixar e outro ser erguido. Parabéns! Estão tirando o mau para dar espaço ao pior!

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