Entrar na onda ou nadar contra ela?
Aos corajosos remanescentes!
Por Cleverson Israel 18 min de leitura
A expressão “nadar contra a correnteza” é de procedência chinesa. Esse, aliás, é o espírito filosófico. Muita gente leiga se pergunta da razão pela qual a filosofia é valorizada. Bem, um dos motivos é este: ela nem sempre faz coro, pelo contrário, ela se levanta contra a voz das maiorias. Fosse pouco isto, o que se verifica é que o pensamento divergente, reiteradamente, tinha a verdade do lado de si. Além de inteligente, o filósofo é persistente, resiliente, determinado. Ele paga o preço para manter-se abraçado às suas convicções. O próprio Nietzsche, um discordante de carteirinha, costumava dizer “quem tem um porquê enfrenta qualquer como”. Na internet existe um discurso hegemônico, vocalizado por uma malta de sicofantas, pagos pela extrema direita, com dinheiro sujo, que insinua que a formação acadêmica para nada serve. Recentemente, vim a conhecer, através do mundo virtual, o produtor de conteúdo Salvatore Saggio. Ele é empresário do ramo de educação. Ele não é palpiteiro. Muitíssimo melhor que isso, ele trabalha com números, com informação. Ele faz levantamento de dados e exibe o nexo incontroverso entre o cidadão cursar uma faculdade em uma universidade reconhecida pela sua qualidade, e a consequente empregabilidade. Quem tem curso superior aufere salários, em média, 120% maiores do que o não bacharel. Outra observação, selecionada pelo conteudista de itálico patronímico, refere-se à networking que o acadêmico constrói ao longo do seu circuito formativo. Oportunidade que nem sempre é replicada em outros ambientes. O Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia (CWTS) da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, publica, anualmente, uma relação daquilo que seriam as melhores universidades do mundo. Era recorrente, até bem pouco tempo, que Harvard, MIT e Stanford figurassem nas três primeiras posições, respectivamente. Agora, ficou assim: 1° Universidade de Zhejiang (chinesa); 2° Universidade Jiao (chinesa); 3° Harvard (norte-americana); do 4° ao 8° lugar, universidades chinesas; 9° MIT – Massachusetts Institute of Technology (norte-americana); 10º Universidade da Califórnia (norte-americana); 17º USP – Universidade de São Paulo (brasileira). A partir daqui, o amável leitor poderá indagar o articulista do motivo por que o rol sofreu tamanha transformação. Devo informar que a China tem realizado investimentos brutais em ciência, tecnologia e educação, desde a Revolução de 1949. Graças a esse investimento, ela dinamizou sua economia, tornou-se líder global em inúmeras áreas produtivas e, do ponto de vista tecnológico, estratégicas. A China também tirou milhões de pessoas da condição de insegurança alimentar. O que comprova que não há contradição entre desenvolvimento econômico e bem-estar social, mas o oposto disso. Preconizando ciência, tecnologia, educação e conhecimento, a China figura na vitrine mundial como a nação que acertou a composição da fórmula do sucesso. Deixou de ser um país agrário, subdesenvolvido, pobre e atrasado, para ser contada entre as nações que praticam a excelência em todos os ramos de atividade humana. Os políticos de extrema direita, assistindo a tudo isso, entretanto, advogam que o Brasil deve fazer o exato oposto daquilo que a China fez. E aí vem a pergunta: no fundo de que abismo os ultradireitistas querem precipitar o Brasil? Por que devemos praticar o inverso daquilo que conduz um país ao alto do pódio? Não me parece razoável ostentar a Bíblia e abraçar o diabo. É pelo fruto que se reconhece a árvore. Os conservadores bem sabem que o aprimoramento das unidades de educação, em todos os níveis, terá como um dos seus efeitos a alteração dos titulares de cadeiras na burocracia do Planalto Central. É isto o que eles mais temem. Essa elite subserviente prefere manter-se como serviçal dos ianques a lutar pela soberania nacional na seara de produção de conhecimentos. Os chineses poderiam ter se conformado ao poder administrativo britânico. Porém, o amor à pátria, ao estudo e ao trabalho, falou mais alto. Um iluminado, e iluminador de consciências, entendeu que valia à pena nadar contra a correnteza. Após décadas nadando contra a correnteza, veio o resultado. Dentro da economia em escala macro, existe um nicho chamado “economia criativa”. Não existe um curso para tornar alguém criativo. Lado outro, fato é que a universidade abre campos de visão, no sentido de esclarecer para qual direção a criatividade deve ser orientada. Qual é a demanda? Do que a sociedade e o mercado precisam? A criatividade precisa residir ali, onde o melhor engenheiro realizou o mais recente aprimoramento, e aquilo que continua sendo uma necessidade. A universidade existe para isso. No Brasil, não obstante, estão a locupletar as redes sociais, apregoando que mapa e GPS são absolutas inutilidades, para quem se encontra radicalmente perdido. Habitantes de que planeta seriam esses “influencers”?
