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O efeito da ausência da filosofia: ordem mundial

Temos tanto cérebro quanto os ricos e poderosos: basta usar!

Por Cleverson Israel 23 min de leitura

Encadeiam-se os desdobramentos da investida norte-americana contra a nação venezuelana. Há quem diga que, os EUA avisaram a Rússia e a China, antes de invadir a Venezuela e seqüestrar Maduro. As forças navais norte-americanas estavam no Caribe por meses, antes do desfecho. O maior porta-aviões do mundo estava lá. O direito internacional e a diplomacia parecem nunca ter existido. O mundo está dividido entre três esferas de influência, a russa, a chinesa e a norte-americana. A América Latina, no viés desta leitura, seria o quintal dos ianques. A propósito, se as regras do jogo são estas, porque a Rússia não poderia invadir a Ucrânia, e outros países do leste europeu? Por que ela não poderia pretender recuperar a sua extensão, aquando da União Soviética estivera no seu auge? Por que a China não poderia invadir Taiwan e colocar uma pedra nesta disputa territorial histórica? Depois de uma fase, entendendo que tecnologia importa mais do que terras e recursos naturais, voltamos ao século XIX. Realmente, não há processo de produção sem matéria-prima, e armamento militar potente não anula o valor de um ponto geográfico estratégico. Os uruguaios, do nada, agora ressuscitam uma questão antiga de terra, e estão a reclamar duzentos quilômetros quadrados do Brasil, que, segundo eles, realizou uma mensuração de forma equivocada. Entre estes três referidos gigantes globais, a Europa, hoje, parece ser menos do que um detalhe, ela que, por séculos, foi o continente mais poderoso em todas as frentes, econômica, política, militar, pensamental, etc. O interessante da Europa foi que ela dominou o planeta inteiro enquanto pôde, e tomou a cautela de construir um complexo enredo teórico, justificando porque ela, e ninguém além dela, deveria capitanear o mundo. Essa muralha teórica e filosófica, era uma barreira, aos cidadãos periféricos e de menor cultura, mas, por outro lado, uma vez bem instruído de autores e sistemas de ideias, nós, os marginais dos países em desenvolvimento, éramos recepcionados ao debate público conceitual. Isto importa reconhecer que a ação comunicativa, e a argumentação séria, poderiam, em dadas situações, sensibilizar os autóctones dos países centrais, que detinham o poder das decisões. No momento atual, entretanto, todo o estoque de inteligência é direcionado à inovação tecnológica, ao desenvolvimento de armas, e ao aquecimento da atividade econômica. Não discutimos mais conceitos, ideias, valores, modos de interpretação da realidade. Nada, destarte, é questão de inteligência, tudo é questão de força. Porque a própria inteligência, é convertida em força. Um dos graves problemas da Venezuela era o solapamento da democracia? Mas o que é a democracia? Os antigos gregos a inventaram. Ela nasceu como o diálogo racional, honesto, e dirigido aos objetivos da comunidade em geral. Na ágora ateniense, os cidadãos capazes, de acordo com o conceito de capacidade daquela época e lugar, reuniam-se para consolidar um entendimento que contemplasse os interesses da maioria, senão de todos. Por conseguinte, democracia, hoje, seria um fórum mundial, em que todos os habitantes do planeta se vissem representados, nos conflitos e debates que a todos afetam indistintamente. Nós temos tecnologia para isso, presentemente. Fiel a esta noção de tecnologia, concluiríamos que, a investida norte-americana, em face da Venezuela, não foi nem um pouco democrática. Maduro figura como réu, em processo-crime, que será julgado por Alvin Hellerstein, de 92 anos, judeu ortodoxo, membro do Tribunal do Distrito Sul de Nova Iorque. Nem vou aventar que Maduro é aliado do Irã, um país nada camarada a um sionista, por exemplo. O que quero dizer, é que estão difundindo o rigoroso senso de justiça desse magistrado, e que ficará ao alcance do acusado a garantia do contraditório e da ampla defesa. Uma organização das informações, e dos pensamentos, numa fase anterior ao estágio jurídico momentâneo de Maduro, seria o ideal. Haveria de se colocar em marcha, tudo quanto fosse possível, para contornar a gravosidade dos procedimentos, ora praxe, na ação judicial em desfavor da autoridade venezuelana maior. Ainda que se alegue a indisponibilidade ao diálogo por parte de Maduro, fica a pergunta: quais os esforços envidados pelos EUA, para resolver o conflito pelas vias pacíficas? Nas relações internacionais, assistimos a uma participação cada vez menor, dos intelectuais, na resolução de aporias, e um incremento crescente de aparatos bélicos. Perdeu-se a noção de política, na sua acepção etimológica. A política vem a ser uma invenção, a sub-rogar o uso da maça, da clava, da flecha e da aljava, fazendo prevalecer o consenso, o mutualismo, a partilha do resultado positivo da cooperação. Quando cada elemento da relação abre parte de uma fração, que a si caberia, ele recupera seu quinhão transigido, que regressa na forma de um valor de uso fungível. Quem não tem mais a ousadia de ser marxista, seja-o, no mínimo, um marxólogo. Karl Marx apropriou-se não apenas da dialética, do eterno mestre de todos nós, Georg Hegel, senão mais, ele tomou para si e para os seus asseclas, a categoria de mediação. Uma mediação pode ser concreta ou abstrata. Perdemos uma valiosa mediação abstrata nas relações internacionais, que é a mediação do pensamento. Argumento de dissuasão é ter armas nucleares, e ponto final. É este tipo de limitação que precisamos transcender. A valorização do pensamento poderia conduzir Maduro, por exemplo, a esta reflexão: até que ponto estar entronizado sobre milhões de barris de petróleo e ver, janela afora, o povo passando fome e todo azar de necessidade, pode ser considerado socialismo? Com a comercialização de petróleo aos Estados Unidos da América, a coletividade venezuelana não ficará numa condição mais digna e confortável? Se houvesse um diálogo intenso, encetado para o assentimento recíproco na seara econômica, quiçá, as duas partes, Estados Unidos da América, de um lado, e, de outro, Venezuela, poderiam preconizar seus ideais jurídicos e políticos. Mas o baralhamento de todos os princípios dentro de uma única cesta, e a posição aguerrida e intransigente por parte de ambos os polos redundou no que estamos tendo o dissabor de testemunhar. Que a lição dolorida sirva de lição aos chefes de Estado de todas as nações do orbe!