Os países nórdicos se notabilizaram pelo amplo garantismo jurídico que assinala suas políticas sociais. Recentemente, mais um passo foi dado no sentido de consolidar esta tendência. Acha-se em experimentação aquilo que poderíamos nominar de “Licença-amizade”. Trata-se de um benefício consistente em gozar de uma folga igual a 15 minutos semanais, dentro da carga horária trabalhada, sem dedução, para edificar vínculos com outras pessoas. O titular da prerrogativa tem a faculdade de agregar os 15 minutos, convertendo-os em uma hora ao mês, fruída em uma única sessão. A solidão é um sentimento que integra a existência de muitos suecos. As pessoas, em geral, estão carentes de relacionamento. Os suecos têm a cultura de respeitar muito a privacidade e o espaço pessoal. Esse valor traz consigo a dificultação de estabelecer e cultivar laços sociais. Nos países hiperbóreos as pessoas divorciam-se mais facilmente. O matrimônio, ou a comunhão de vida, é vista mais como um contrato, ou uma tentativa de composição familiar, rescindível como se fosse um contrato laboral de experiência, caso em que, a superveniência da incompatibilidade de perfis pessoais, direcionaria o relacionamento para sua dissolução. Uma das consequências dessa fluidez das entidades familiares é a ruptura de vínculos, causada pelo divórcio. É o preço da saída da relação. Outra informação econômico-social, de impacto, é que 40% das residências, no país em apreço, apresentam ocupação por uma só pessoa. Essa disponibilidade imobiliária exibe o lado bom da economia sueca. No Brasil, a título de comparação, às vezes, um imóvel é ocupado por seis ou sete pessoas, sem vínculo entre si, porque o aluguel é caro. As pessoas convivem com outras porque são obrigadas. Há quem diga que o socialismo, desde o princípio, procurou valorizar o conhecimento popular. Marx procura ver nas sociedades não desenvolvidas o socialismo primitivo. Na Rússia pré-revolucionária, for instance, uma mesma ferramenta era partilhada por um grupo razoavelmente numeroso. Por quê? Em apertada síntese, porque só havia um machado, só havia um martelo, só havia uma cavadeira. Seria, destarte, um tipo de socialismo imposto pela escassez. Outro fator que contribui para o isolamento das pessoas é o acesso direto e imediato a dispositivos digitais. É mais cômodo e menos constrangedor exercitar relacionamentos remotos. Toda vez que um direito novo é lançado na jurisfera, há que surgir um correspondente obrigado. Dito de modo simples, trata-se de mais um encargo para as empresas do país em comento. Seja como for, se os cidadãos suecos estão padecendo intensamente de solidão, é possível que o descrito fenômeno social repercuta, negativamente, na produtividade das atividades econômicas nacionais. Tendo-se essa premissa por suposto, justificar-se-ia a criação do mecanismo legal. A discussão que emerge, aqui, é até que ponto uma demanda pode ser considerada atribuição do Estado. Realidades privadas e existenciais podem ser sempre assimiladas pelo Estado regulador? A filosofia do welfare state leciona que “não há nenhum problema que um Estado bem organizado não possa resolver”. Pessoalmente falando, mantenho reduzidos contatos com outras pessoas físicas. Sem embargo, solidão é o que não me afeta. Porque o conhecimento é algo social e relacional, do princípio ao fim. Com efeito, noutro lado, observo pessoas com vida social intensa, profundamente abatidas pelo sentimento de solidão. Escrevo isto não para declarar que não necessito dos meus semelhantes. Bem pelo contrário! A maneira como acessamos a riqueza do outro subordina-se a nuances. O que pretendo esclarecer, é que a solidão não é um marcador numérico de quantas pessoas atravessam nosso cotidiano ou deixam de fazê-lo. Ela tem muito mais a ver como nós nos percebemos na interação com outras pessoas. É uma questão de perspectiva, de ponto de vista. E isso, o Estado não tem como contornar. Matematicamente, a iniciativa legal aludida é uma estratégia perfeita. Pondero, inobstante, que, os poucos amigos que fiz nesta vida, têm esse diferencial: eles comunicam aquela sintonia fina, algo sutil e invisível, porém, essencial. Se, entrementes, a tese patrocinada por mim, a de que certas pessoas são especiais, não for bem recebida, insisto, então, em tudo sendo pura álea, que encontrar um amigo genuíno, é mais, é muito mais do que perfectibilizar a sextena do bilhete premiado. Amizade é luz!
