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1974

1974, além de ser o ano em que minha irmã, Leila, nasceu, é um marco na história de Portugal. Eu passaria a existir apenas cinco anos mais tarde. Nossa ex-metrópole passou pela tal “Revolução dos Cravos”. Um movimento protagonizado por suboficiais contra a cúpula do executivo tirânico e fascista, logo tomou adesão massiva da população […]

Por Israel Minikovsky 16 min de leitura

1974, além de ser o ano em que minha irmã, Leila, nasceu, é um marco na história de Portugal. Eu passaria a existir apenas cinco anos mais tarde. Nossa ex-metrópole passou pela tal “Revolução dos Cravos”. Um movimento protagonizado por suboficiais contra a cúpula do executivo tirânico e fascista, logo tomou adesão massiva da população em questão de instantes. Uma festa de aniversário, cancelada em razão do levante, teve seus cravos subtraídos do local do evento, um restaurante, os quais foram colocados no cano das armas. Lá se vão 50 anos. Portugal, à época, tinha o governo ditatorial mais antigo da Europa Ocidental. O regime teve sua queda decretada. Na sequência, na primeira eleição democrática, não por coincidência, o país elegeu um presidente socialista. As colônias marítimas, sobretudo as da África, fragilizaram e conduziram à sucumbência o regime que já contabilizava décadas de arbitrariedade política. A verdade é que a opressão tem um custo alto. A periferia impacta o centro porque nada é gratuito, nem mesmo e muito menos os aparatos montados para submeter existência de sujeitos em prol de vantagens econômicas e políticas auferidas pelos estabelecentes e mantenedores destas mesmas estruturas. E que fique claro: não estamos a nos reportar a uma mera incongruência contábil, diferente disso, foi pela contestação ideológica, oriunda da cabeça de intelectuais africanos autóctones, e foi pela resistência física e armada das populações locais, que o dominador estrangeiro teve que retroceder e se retirar. O que a história nos mostra é não somente haver um movimento pendular entre esquerda e direita, senão mais radical do que isso, entre despotismo e democracia. Penso que assim como a doença salienta o valor da saúde, o risco das guinadas ditatoriais deveriam nos alertar para o valor democracia e o zelo que devemos ter por ela. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro líder português a sugerir que haja uma reparação financeira às ex-colônias que sofreram com o tráfico de escravizados. A iniciativa foi classificada pela extrema-direita portuguesa como “traição à pátria”. Para a esquerda, a indenização é uma medida de justiça, e pode fomentar o intercâmbio entre Portugal e os países beneficiados com os repasses, pois as áreas de conversão do investimento seriam, por exemplo, saúde e educação, o que possui o potencial de alavancar a economia das respectivas regiões. A razão de o cenário político português se mostrar dividido, num parlamento polarizado entre a ala de esquerda e a de direita, retrata as glórias do pretérito: há um orgulho nacional ligado ao período colonial em que Portugal é mentalizado como uma potência internacional, mas há, também, um orgulho nacional relacionado à aquisição das prerrogativas democráticas adquiridas pela mão do próprio povo, facilmente associável a pautas libertárias. A dominação “fora de casa” era acompanhada pela dominação “dentro de casa”. Essa experiência histórica acena para a dificuldade de se estruturar e viver numa meia-democracia. O meio século dessa ocorrência merece ser rememorado também por brasileiros, na medida em que nossa cultura ecoa numerosos elementos de genética lusitana, inclusive o modo de se fazer política. Já não se trata mais daquele modelo em que o padrão europeu deveria ser replicado, como se fôssemos uma instância amorfa e sem identidade. Todavia, para todo o sempre, nada impede que troquemos experiências, que aprendamos com Portugal, e que Portugal aprenda conosco. Um povo culto, trabalhador, responsável e amante da liberdade, não precisa de ditadores e não os quer como lideranças. A Revolução dos Cravos mostrou que podemos transformar o mundo prescindindo-se de métodos violentos. Nossa segurança não está nas armas, está nos livros. Os cravos lisboetas deveriam chegar a Israel, Palestina, Irã, Ucrânia, Rússia, Coreia do Norte. As flores que calaram fuzis deveriam calar drones e mísseis. A Revolução dos Cravos foi o reconhecimento de que o “outro” é diferente do meu “eu”, e mesmo assim, todos temos o direito de ocupar um espaço no mundo. Aceitar que o meu vizinho tem a verdade pessoal dele, e que, apesar disso, devamos nos tolerar, respeitar e amar, é o que se chama de “alteridade”. Que a festa de aniversário dessa verdade de meia-idade, cinquenta anos, desperte líderes e liderados para o fato de que a solução se conquista pelos meios pacíficos. Paz é luz!

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