NR 31

Mesmo que a bombacha esteja sovada em tira!

Por Cleverson Israel 18 min de leitura

A NR 31 já tem algum tempo, mas ainda assim dela falarei. Ela trata da segurança nos trabalhos próprios da agricultura, da silvicultura, da pecuária, e congêneres. A norma referida prevê o uso obrigatório de EPI – Equipamento de Proteção Individual nos trabalhos com rebanhos, e, para ser bem específico, o uso de capacete. Realmente, não é uma experiência agradável cair do cavalo e ser pisoteado na cabeça por um touro de oitocentos quilos. Muito embora vejamos peões de rodeios usando capacete, e, sobre ele, um chapéu improvisado, não é confortável, e nem mesmo funcional. Logo, se o trabalhador quiser adimplir a norma regulamentadora, terá de renunciar ao chapéu. E, note-se, não é só uma questão de accountability, mas de segurança pessoal. Como algumas outras profissões, a de boiadeiro implica um modo de ser. A pecuária, para além de ser uma atividade econômica, é um estilo de vida, um jeito de estar no mundo. E o chapéu é um dos elementos mais marcantes daquilo que tipifica um peão de fazenda. Dito isto, esclareço que a permuta do chapéu pelo capacete acarreta uma severa descaracterização cultural. Sou a favor da racionalização e da padronização dos processos de trabalho. Todo o planeta caminha para isto. Todavia, o que o intelecto aprova objetivamente, faz o coração ficar embargado. O gauchismo é a prova viva de tudo o que estou a falar. Ser gaúcho não é simplesmente nascer no Rio Grande do Sul. O verdadeiro gaúcho é aquele cuja existência gira em torno do cavalo, do gado, da plantação, do fogo de chão, da comida simples e campeira, do chimarrão. E, de todo esse conjunto de coisas, parece que o mate amargo é o que mais resiste ao apagamento. Como advogados usam terno e gravata, como profissionais da saúde vestem-se de branco, o peão tem orgulho da pilcha, da qual o chapéu faz parte, porque o ofício de lida no campo é a vivência de um papel, o gaúcho é um ator. Tirar-lhe o chapéu, em alguma medida, é tirar-lhe a essência. Quando vamos ao mercado, no guichê de açougue encontramos bandejas de isopor, embaladas, contendo diversos tipos de carne, e, sobre a superfície do plástico, certificados vários, atestando suas qualidades sanitárias, higiênicas, ecológicas, etc. Ora bem, porque não criamos um certificado que ateste o respeito às comunidades e aos trabalhadores que fazem o boi crescer e engordar, mantendo seus usos e costumes, mantendo a identidade cultural, que é alma de seu esforço, o motivo pelo qual já no alvorecer o peão encontra-se vígil e comprometido? O capacete pode ter a sua função, mas certo é que ele vem a calhar em momentos excepcionais, ao passo que o peão se depara com a canícula por dias a fio, pelo que lhe vai bem o chapéu. Uma nutricionista poderia tecer críticas duras ao hábito alimentar consistente em comer revirado de feijão, logo cedo, no café da manhã. Porém, ela conhece, e computa na conta do gasto calórico, o repuxo que é o manejo de animais de grande porte e, não raro, bravios? A mudança tecnológica sempre tem sido vista como fator de progresso, como aquilo que poupa o ser humano de tarefas árduas. Como seres simbólicos, entretanto, por vezes preferimos o trabalho duro e significativo, ao trabalho suave, monótono e insosso. O êxodo rural continua em marcha. O peão não foi ao centro urbano usar capacete, mas o capacete infiltrou-se nos pampas e repousou sobre a cabeça do boiadeiro, sem lhe pedir licença. O mesmo governo que ocupa-se e preocupa-se com a saúde de todos os trabalhadores, do campo e da cidade, também investe pesado em cultura. Com efeito, a cultura não é uma “caixinha”. O que vemos é o entrelaçamento das dimensões da existência humana. A cultura gauchesca é uma cultura que se realiza no cotidiano do trabalho. Então nos vemos diante de uma antinomia, em que concorrem o valor do trabalho seguro e o valor da cultura que inere à atividade laboral. Não dá para fazer milagre, mas dá para fazer reflexão. Os muitos governos têm visto que é melhor manter o homem do campo no seu local de origem. Ora, o que remove o homem do campo não é apenas a falta de oportunidades de desenvolvimento de atividades de renda e fomento, senão a perda da sua identidade, calcada numa cultura que perdeu seu lugar no mundo. No século vinte e um, o século dos drones, não se veem mais nem cavalo, nem peão, não se sente mais o cheiro do pasto e da terra, tudo é executado por controle remoto. Devo reconhecer, o operador deste controle está seguro: ele dificilmente será chifrado por uma rês, não ficará exposto a sol ou chuva, não estará sujeito ao pialo de um equino. Lado outro, será tão alienado quanto o operador de máquina, no ambiente urbano, que desconhece o fim para que se dirige o alvo de seus esforços, desconectado que está com o objeto do seu labor. A figura do peão audaz, corajoso, imponente, cede seu posto a um trabalhador sedentário, domesticado, culturalmente descaracterizado.