Página Inicial | Colunistas | Drones Vivos

Drones Vivos

Pombocop ou robopombo?

Por Cleverson Israel 17 min de leitura

A Guerra da Ucrânia redefiniu o que vem a ser uma guerra. Em nenhum outro conflito bélico se empregou o uso de drones, em tão ampla escala, como no caso aludido. Os russos não dão um minuto de descanso no sentido de sempre estarem aprimorando essa tecnologia. A última novidade veio a ser a instalação de chips cerebrais em pombos, para fazer deles drones vivos. Segundo se alega, eles teriam mais tempo de autonomia de voo. Em sendo preciso o traslado de maiores cargas, corvos seriam feitos cobaias, para passar pelo mesmo processo. Eu já havia visto algo idêntico empregando-se moscas. Os pombos, conforme os russos, seriam recursos manejados em atividades militares, mas ainda e principalmente, em projetos voltados à promoção do meio ambiente. Embora moscas e pombos sejam animais, há uma distância ontológica abissal entre um inseto e um pássaro, entomologistas e ornitólogos que o digam. Há uma discussão ética sobre o uso de cobaias em laboratórios e, na sequência, em toda sorte de atividade antrópica que se beneficia destas vidas animalescas. Os dispositivos, instalados no promontório destas aves, têm o poder de fazer a mobilidade delas ser direcionada para qualquer orientação desejada, qual robô teleguiado à distância. Radicalizando-se esta tendência, em última instância, a que assistiríamos seria a isso: humanos destituídos do seu livre-arbítrio, um dos maiores dons dados ao ser humano por Deus, para ficarem reduzidos à condição de robôs. Alguém poderia redarguir que há uma linha que separa o humano do não humano. Isto é bem verdade. Contudo, em tempo de acirramento de interesses vários, essa linha é apagada, diluída, ou relativizada. É tarefa dos intelectuais decernir visibilidade a esse tão relevante traço. Frankenstein, Robocop e o ciborgue de O Exterminador do Futuro, foram ficção científica, e agora ascenderam ao nível de realidade. Há um século se discutia, se era moralmente válido e permitido, estudar fisiologia usando cães, tal como fizera o russo Ivan Pavlov. De onda em onda, o debate é reacendido. Dentro do politicamente correto existe o grupo quejando do especismo. Nesta perspectiva, não se concede espaço algum a experiências do jaez aqui descrito, dado que as demais espécies que partilham conosco a casa comum são tão credoras de direitos inegociáveis, como a vida e a dignidade, quanto nós, homines sapientes. Quando a teleologia ecológica e ambientalista é invocada, o apelo é claro, estamos a sacrificar parte da natureza para preservá-la na dimensão macro. Calha recordar, no entanto, que por mais nobres que sejam os fins, assim doutrinam os moralistas, eles não validam todo e qualquer meio, lógica ou concretamente praticável. A sugestão é sairmos da posição de dominadores da natureza, para sermos com ela, como ela, em resumo, para que assumamos nosso status de parte de algo maior, quebrando a artificiosa hierarquia que forjamos para autoglorificação. Ambição sem limites e conhecimento sem sabedoria podem redundar em severo dano a todos os envolvidos. Pombos também são criaturas de Deus. A Bíblia ensina, a propósito, que nenhum deles se perde, sem que o Onisciente se dê conta da sua subtração. Quem fosse pobre, de acordo com o Pentateuco, e tivesse que realizar a propiciação, poderia sacrificar pombos no holocausto. Agora os pombos estão sendo sacrificados ao deus (o uso de minúscula é consciente) da ciência, ao deus da tecnologia, ao deus da guerra, ao deus do poder e do dinheiro. A razão instrumental reduz tudo a mediação. O reino dos fins é dado aprioristicamente. Ele não passa pelo crivo da razão dialética. Essa perda da visão de totalidade faz com que a morte de um soldado, na linha de batalha, não passe de um momento pontual e efêmero do Eu Universal, destituído de importância e de maiores prejuízos emocionais a quem quer que seja. Essa indolência nos esporeia para a percepção de que, enquanto seres humanos perecem, naquilo que os filósofos chamam de “extensão da política”, em instante algum a vida de um pombo, ou de vários deles, receberá a merecida atenção, num planeta em que o findamento da vida de seres pensantes e sencientes é algo banal e normalizado. Essa complexidade nos mostra que um avanço tecnológico pode corresponder a um retrocesso comportamental e ético. Pessoas são mais que recursos humanos, e pombos são mais que recursos naturais. Estamos a tratar de vidas. E vida é um bem cujo valor é de difícil definição, ou inestimável mesmo. A guerra não anula nossas responsabilidades e nossos deveres espirituais. A Ética Mínima é extensível às demais formas de existir do globo. Um russo coloca um chip em um pombo, e um ucraniano alveja a ave, por vê-la como aparato de ataque. O que o mísero columbídeo tem a ver com o desentendimento de nós, humanos?